Edição 191 - Matéria Especial
 
Setor em Foco
A edição 2010 do Seminário da Reposição Automotiva, que também foi transmitida pela
internet, atraiu um público recorde. O evento recebeu 500 profissionais no teatro da Fiesp,
onde foi realizado, e cerca de 1.000 internautas
 
Cléa Martins e Patrícia Larsen
 

  Seminário da Reposição Automotivo
   
  Da esq. p/ dir.: Alfredo Peres, Francisco de La Torre, Paulo Butori, João Ometto, Renato Giannini, Antonio Fiola, José Parro, Marcio Migues
  Da esq. p/ dir.: Alfredo Peres, Francisco de La Torre, Paulo Butori, João Ometto, Renato Giannini, Antonio Fiola, José Parro, Marcio Migues
   
A necessidade de organização do setor parece ter contagiado a todos e se tornado senso comum entre todos os profissionais que fazem parte deste grande mercado e atuam na fabricação, venda ou aplicação das peças e componentes que equipam e ajudam a reparar os mais de 29 milhões de veículos da frota circulante no País. Pelo menos esse foi o clima que regeu o Seminário da Reposição Automotiva deste ano.

Realizado no Teatro Ruth Cardoso, dentro do prédio da Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo –, na Avenida Paulista, o evento atraiu cerca de 500 participantes. Mas o espaço físico do teatro ficou pequeno para tantos interessados. É que o Seminário, que contou também com transmissão ao vivo através da internet para mais de 21 cidades brasileiras, foi acompanhado ainda por mais de 1.000 internautas. “Isso mostra que estamos no caminho certo e dá os créditos merecidos a um trabalho que vem sendo realizado com muito carinho e consciência pelos dirigentes das entidades que regem esse setor”, avalia Antônio Carlos Bento de Souza, coordenador do GMA – Grupo de Manutenção Automotiva – e diretor e conselheiro do Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores).

O Seminário da Reposição Automotiva é organizado pelo Grupo Photon e realizado pelo GMA, que integra as princi-pais entidades do setor – Sindipeças, Sicap e Andap (Sindicato do Comércio Atacadista, Importador, Exportador e Distri-buidor de Peças, Rolamentos, Acessórios e Componentes para Indústria e para Veículos no Estado de São Paulo e Asso-ciação Nacional dos Distribuidores de Autopeças), Sincopeças (Sindicato do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos no Estado de São Paulo) e Sindirepa-SP (Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo).

Neste ano, os palestrantes trouxeram à tona temas importantes e que precisam ser debatidos pelo mercado de repo-sição, entre eles a possibilidade de se efetivar de uma vez por todas as ITVs – Inspeções Técnicas Veiculares – no País, os problemas recorrentes da garantia das autopeças no mercado, o combate à pirataria e às falsificações e, por fim, o impacto da implantação da NF-e (Nota Fiscal Eletrônica) nas empresas do setor. “Todos os assuntos discutidos foram muito pertinentes e oportunos, acredito que esse tenha sido um dos pontos fortes do evento neste ano, que foi, sem dúvida, melhor do que o do ano anterior, assim como aquela edição já havia sido melhor do que a de 2008”, diz Bento.

Outro assunto que interessou bastante os participantes e serviu como um apontador de tendências e estudo de mercado foi o estudo sobre o mercado de reposição de autopeças europeu apresentado por Hans Eisner, presidente e CEO do Grupo Auto Union International, com sede na França. Segundo Eisner, a competição entre concessionárias e reparação independente é bem mais ferrenha por lá.

Na Europa, incluindo os países do Leste Europeu, a reposição, que conta com 287.950 oficinas, deve movimentar até 2015 um montante de 90 bilhões de euros. “Percebemos que existe no nosso mercado uma tendência muito forte de qualificação dos profissionais e que os serviços por lá têm sido realizados em prazos cada vez mais longos de tempo, visto a maior qualidade empregada e exigida pelo cliente. Além disso, percebemos que os distribuidores têm se interna-cionalizado”, explica o executivo.

Em sua apresentação, Eisner ainda falou sobre a necessidade do setor de reparação automotiva independente no País se unir e trabalhar para a aprovação de leis que façam com que as montadoras sejam obrigadas a partilhar informações técnicas importantes sobre a construção e reparo dos veículos que produzem: “Os primeiros passos do Right to Repair, lei que obriga os fabricantes europeus a divulgarem essas informações aos reparadores independentes, foram dados em 2002, quando definimos uma legislação que dava o direito ao consumidor escolher onde consertar seu carro e quebramos com isso o monopólio de informação das montadoras”.

Rodrigo Carneiro, diretor comercial da Distribuidora Automotiva, foi o mediador da seção de perguntas e respostas entre Eisner e o público e destacou a importância do empresário brasileiro conhecer o mercado de reposição europeu e suas iniciativas: “Mesmo sendo um mercado diferente do nosso, ele ainda aponta tendências às quais devemos estar atentos e, se alguma delas nos for útil, como a Right to Repair, tentar adaptá-la para nossa realidade. O maior beneficiado será com certeza o consumidor final”, afirmou o executivo durante
sua apresentação.

ITV já
Além dos palestrantes, líderes de diversas entidades do setor e do governo, como João Guilherme Sabino Ometto, se-gundo vice-presidente da Fiesp, Paulo Butori, presidente do Sindipeças, Renato Giannini, presidente da Andap e do Sicap, Francisco de La Torre, presidente do Sincopeças, Antonio Carlos Fiola, presidente do Sindirepa-SP, Marcio Migues, presidente do IQA (Instituto da Qualidade Automotiva), José Edison Parro, presidente do conselho diretor da AEA (Asso-ciação Brasileira de Engenharia Automotiva), e Alfredo Peres, diretor do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), foram convidados para abrir o evento. “Vejo que este é sem dúvida o maior evento do setor automotivo e se o cresci-mento da frota tem sido de 8% ao ano a expectativa de todos aqui de crescer 10% neste ano não é nada fantasiosa”, afir-mou Peres durante seu pronunciamento, referindo-se ao resultado dado pelo público do evento em pesquisa interativa realizada minutos antes da cerimônia de abertura do Seminário.

Aliás, foi para o diretor do De¬natran que a segunda palestra do dia, sobre os resultados do programa Carro, Caminhão e Moto 100% do GMA, foi dirigida. “Esse Seminário nos dá uma chance especial para mostrar por que a Inspeção Técnica Veicular deve ser implantada no Brasil, ainda mais quando temos nele um representante do governo”, aponta Antônio Carlos Bento.

Segundo o coordenador do GMA, pesquisas e estudos feitos por entidades bastante respeitadas no País indicam que, se instaurado, o programa nacional de inspeções poderia salvar a vida de 12 mil pessoas por ano, além de gerar benefícios para toda a sociedade: “Este é um bastão que está em nossas mãos e se não o passarmos adiante, ninguém mais o fará. É por isso que aproveitaremos esta ocasião para entregar ao senhor Peres um documento com todos os dados discutidos por nós neste evento e com o pedido de instauração do programa de ITV no País”.

Batata quente
A funcionalidade dos programas de garantia oferecidos pelos fabricantes de peças ao mercado independente foi um dos temas mais polêmicos do evento. E que jogue a primeira pedra quem nunca passou por nenhum problema com a garantia de autopeças. No entanto, ao invés de tentar achar culpados para o problema, o Seminário apresentou um case inovador na área e o resultado de alguns estudos feitos pela Valeo sobre o processo de devolução dos componentes automotivos. “Percebemos que a capilaridade que dá poder de atuação para a cadeia independente da reposição impede que o processo inverso aconteça rápida e adequadamente”, explicou durante sua apresentação Jaser Madureira, gerente da área de Qualidade, Meio Ambiente e Customer Service da Valeo.

Em sua palestra, Madureira mostrou como passou a funcionar o processo de garantia da Valeo, no qual o reparador irá receber assistência direto da fábrica, dispensando varejistas e distribuidores do processo: “Por meio de uma parceria que firmamos com a Mondial, empresa especializada em socorros e assistência técnica, os técnicos passaram a atender o reparador em sua oficina. Basta que ele ligue para nossa central e em poucos minutos o técnico estará lá. Se for constatado problema na peça, ela será trocada na hora. Do contrário, o técnico ajudará o reparador a instalar o produto da forma correta. Com isso passamos a dar uma resposta imediata aos nossos clientes e evitamos toda essa discussão na cadeia”, afirmou.

Segundo Rodrigo Jimenez, diretor Comercial e de Marketing da Mondial Assistance, o projeto que começou a funcionar inicialmente em quatro cidades, hoje já atende mais de 80. “Achei muito interessante a resposta da Valeo a esse problema, pois nós não estamos preparados nem temos gente suficiente para cuidar de trocas. Se ninguém fizer nada daqui a pouco teremos que abrir um departamento técnico. Esse case também nos mostra que precisamos de fato montar um grupo para discutir e achar soluções mais inteligentes para esse problema, com o qual ainda lidamos de maneira muito amadora”, declarou Antonio Carlos de Paula, diretor e gerente-geral da Pellegrino Distribuidora de Autopeças no debate sobre garantia que se seguiu à apresentação de Madureira sobre o case Valeo.

O debate foi mediado por Antonio Carlos Fiola, presidente do Sindirepa-SP. Frederico dos Ramos, diretor Comercial da Ginjo, Helton de Andrade, presidente do Sincopeças-BH, Ranieri Palmeira Leitão, presidente da Assopeças-CE (Associação da Indústria e Comércio de Veículos do Estado do Ceará), César Garcia Samos, diretor do Sindirepa-SP e proprietário da Mecânica do Gato, Ricardo Paulino Ramos, diretor Técnico da regional de Campinas do Sindirepa-SP e da AutoCenter Advanced. “A apresentação do case Valeo acrescentou muito para a discussão deste tema, que precisa ser resolvido de uma vez por todas. E a gente sai daqui com uma grande lição de casa e com o objetivo de formar um grupo de trabalho para discutir a questão. Esse já foi com certeza um bom começo”, concluiu Fiola.

Contra pirataria, organização Flávio Augusto Nunes de Meirelles, presidente do Imeppi (Instituto Meirelles de Proteção à Propriedade Intelectual) a-presentou no Seminário os resultados das ações que promoveu junto à Abióptica (Associação Brasileira da Indústria Óptica), contra a pirataria, contrabando e falsificação de óculos: “A pirataria tem uma origem muito semelhante em di-versos setores. Por isso, acredito que os estudos e as ações que promovemos para o mercado óptico possam contribuir bastante para o combate à ilegalidade também no mercado automotivo”.

Segundo Meirelles, a organização do setor em prol comum foi a única forma de promover ações realmente eficazes contra a pirataria: “Entre 2006 e 2008 o consumo de óculos falsificados caiu em mais de 50% no Brasil e esse é um reflexo bastante positivo dos trabalhos que temos realizado durante esse tempo”.

A boa notícia para o mercado de reposição é que o GMA já aprovou um projeto, junto ao Imeppi, que estabelece a monitorização do comércio de peças falsificades no varejo.

Fisco eletrônico

Para fechar o Seminário, José Guarino, consultor de gestão de empresas da Radar Fiscal, falou sobre o impacto que a implantação do sistema fiscal eletrônico trará para as empresas do setor. “A NF-e é tão somente uma parte de um pro-grama muito mais abrangente que é o Sistema Público de Escrituração Digital (Sped) e que já agrega hoje mais de 240 mil empresas que usufruem e estão integradas a um mesmo
sistema”, explicou.

Segundo Guarino, a era digital exigirá mais atenção das empresas e reduzirá muito as chances de elas esconderem seus ganhos do Fisco: “Como o sistema está todo integrado e o Fisco tem uma malha digital formada pelo cruzamento de diversas informações – bancárias, do transporte de mercadorias, de pagamentos e de recebimentos – fica ainda mais complicado e perigoso para o empresário descuidar do seu departamento contábil”.

Além de emitir e registrar devidamente suas notas, as empresas ainda terão que conferir a veracidade das notas que recebe dos fornecedores: “Em São Paulo, por exemplo, qualquer cupom fiscal emitido deve ser registrado na Secretaria da Fazenda. Ao receber uma nota cabe à empresa ainda apurar a legalidade do documento também na Secretaria”.

De maneira geral, para emitir a nota fiscal eletrônica precisa-se de um computador conectado à internet de banda larga, além de um programa emissor que pode ser encontrado no site da Receita Federal e de um Certificado Digital, que permite o acesso ao programa.

Ao fim das explicações do consultor, George Ruditsky, conselheiro do Sindipeças, coordenou uma seção de perguntas do público ao palestrante, que foi categórico: “Enquanto achávamos que o Fisco dormia, ele revolucionou o processo de fiscalização no País. O lado positivo de todo esse processo é que a competitividade desleal, promovida pela sonegação dos impostos, tende a diminuir bastante”.

Homenagem e continuidade Maurício Barbalho, ex-presidente da área de aftermarket automotivo do Grupo Schaeffler, que faleceu em 25 de abril, foi lembrado pelos colegas na abertura do Seminário: “Ele foi um profissional que trabalhou e contribuiu muito para o cres-cimento deste mercado”, disse Renato Giannini, presidente da Andap e do Sicap.

Neste ano, o Seminário contou com o patrocínio de empresas como Bosch, Delphi, Goodyear Correias Automotivas, Mahle, NGK-NTK, Pellegrino, Rede PitStop e do Grupo Schaeffler. Além disso, teve o apoio da Affinia, Fras-Le e TRW.

 
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