Edição 191 - Entrevista
 
Sob a Ótica do Mercado
Edvaldo Ricardo Selidonio de Souza, gerente de Vendas para o Aftermarket da Mahle Metal Leve, defende o financiamento com juros reduzidos para equipamentos de diagnósticos para oficinas. Engenharia reversa e as ações de sua empresa para o mercado de reposição são outros temas de sua entrevista para a Mercado Automotivo
 
Redação

 

  Edvaldo Ricardo Selidonio de Souza
  Edvaldo Ricardo Selidonio de Souza
   
Mercado Automotivo – Senhor Edvaldo, a preferência de parte do consumidor por produtos de qualidade duvidosa – alguns piratas – leva grandes empresas, como a Mahle, a repensarem investimentos no País?

Edvaldo de Souza – De forma alguma. Mais de 2.000 engenheiros trabalham em nossos Centros Tecnológicos em Stuttgart, Northampton, Detroit (Farmington Hills e Novi), Tóquio e Xangai. Em 2009 foram investidos mais de R$ 60 milhões na construção de um moderno Centro Tecnológico na cidade de Jundiaí (SP) para pesquisa e desenvolvimento de produtos inovadores, que proporcionam vida útil mais longa ao motor, sob as circunstâncias mais difíceis. Importantes aquisições também foram realizadas em 2008, 2009 pelo grupo Mahle. Entretanto, reconhecemos que esses esforços e investimentos somente são praticáveis quando nossos produtos mantêm seu alto valor de reconhecimento – por meio de nossas marcas. Por isso, em conjunto com outros fabricantes, assumimos uma batalha contra a pirataria de produtos e marcas.

MA – A propósito, são mito ou realidade as afirmações que apontam que as grandes corporações preferem fazer inves-timentos na China e de lá exportar para todos os países?

ES – Sem dúvida, a China assim como a Índia são concorrentes potenciais, e temos de estar preparados para enfrentar esse desafio. Temos atualmente 11 plantas na China, onde há fatores que tornam o custo de produção mais competitivo, sobretudo a questão da mão de obra, cujo peso é significativamente menor que em outros países. Por outro lado, a Mahle conta atualmente com mais de 10.000 colaboradores na operação da América do Sul, que se destaca como uma importante plataforma de fornecimento de peças para todos os nossos clientes e outras plantas da Mahle no mundo. Em função disso, implementamos uma reengenharia nos nossos produtos e processos, visando redução de custo e, com isso, melhoramos a competitividade das nossas plantas do Brasil.

MA – Essa “tradição” também pode ditar o ritmo lento da introdução de equipamentos de diagnóstico em oficinas e centros automotivos?

ES – A exemplo de outros setores, o automotivo está passando por diversas modificações, sobretudo as tecnológicas. O mercado está mais exigente e competitivo e teremos, em futuro não muito distante, o desafio da modernização e reno-vação da frota, alta tecnologia empregada na fabricação dos produtos, a ênfase no fornecimento de módulos/sistemas, aumento do conteúdo eletrônico e, não menos importante, a qualificação do reparador para fazer frente à inovação tecnológica. Acredito que o ritmo lento dos investimentos em equipamentos e qualificação das oficinas está diretamente ligado à capacidade financeira e restrição ao crédito das oficinas e dos centros automotivos.

MA – Partindo da constatação de que esses equipamentos serão fundamentais para a existência das empresas de repa-ração em um futuro próximo, por que as fábricas não tentam convencer o governo a criar linhas de financiamento com juros e IPI reduzidos para as
oficinas adquiri-los?

ES – Esse é um tema que merece a atenção especial dos fabricantes, mas infelizmente, as soluções de certos problemas estão fora de nosso controle. É imperativo que nossos parlamentares desçam do palanque e comecem a trabalhar em prol do setor. Os problemas fiscais e tributários bem como a falta de linhas de financiamento (funding) são grandes empecilhos para todos os elos do setor.

MA – A engenharia reversa, que muita gente acusa de ser praticada por algumas pequenas indústrias, prejudica as em-presas desenvolvedoras de produtos ou essa competição é irrelevante?

ES – Não é irrelevante e a Mahle está monitorando de perto essa tendência. Infelizmente, muitos fornecedores não conseguem resistir à tentação de tirar vantagem disso com meios ilegais, copiando ou imitando produtos e marcas. Sem dúvida, o uso de imitações, com qualidade tecnicamente inferior pode pôr em perigo motores, veículos e passageiros. Por isso, estamos trabalhando em várias frentes: Para sua correta identificação, nossos produtos apresentam recursos especiais como hologramas tridimensionais. Como expositores da feira de comércio em Frankfurt, estamos envolvidos no projeto “messe Frankfurt against copying” (medidas de Frankfurt contra cópias) para a luta contra a pirataria de produtos e marcas. Os fabricantes automotivos e de peças estão coordenando ações conjuntas contra os imitadores, dentro da estrutura da Associação da Indústria Automotiva Alemã (VDA) e outras associações.

A proteção dos direitos da propriedade intelectual é de interesse de todos.

Juntos podemos impedir o prejuízo de oficinas, comércio, indústria e consumidor final e assegurar que produtos efi-cientes, de alta qualidade e seguros, estarão disponíveis no futuro.

MA – Como a Mahle lida com essa situação – somente no mercado ou na justiça também?

ES – Procuramos resolver as questões no mercado, mas, se necessário, o caso é encaminhado ao nosso departamento jurídico.

MA – É possível projetar qual será o desempenho no ano de 2010 para o segmento de reposição independente?

ES – O desempenho econômico e financeiro das empresas está positivo esse ano, impulsionado pela expansão da economia, que está gerando forte demanda no consumo. A companhia apresentou aumento no volume de produção e de vendas, nos mercados interno e externo, para os segmentos de equipamento original e aftermarket.

Essa performance vem sendo influenciada pela estabilidade da economia brasileira, pelas perspectivas de continuidade de expansão do crédito, do emprego, da renda, do investimento e ancorada, principalmente, no mercado interno aquecido.

O GMA (Grupo de Manutenção Automotiva) prevê para 2010 a manutenção do ritmo de crescimento do mercado em torno de 9,5% para o aftermarket, e estamos acompanhando essa evolução.

No nosso caso, esse resultado também foi decorrente da aquisição da empresa de ativos operacionais, que ampliou a linha de produtos e reforçou, ainda mais, nossa posição no mercado.

MA – E quais são os programas da Mahle para colaborar com o fortalecimento desse mercado?

ES – Com a expansão continuada da nossa gama de produtos, continuaremos a seguir, passo a passo, a estratégia da política da companhia, orientada ao cliente e ao mercado, a fim de oferecer um suprimento de peças e serviços cada vez melhor. Isso caminha simultaneamente a uma orientação mais forte também no mercado de reposição.

No Brasil, temos um Centro de Distribuição em Limeira (SP) com uma área total de 50.000 metros quadrados, sendo 25.000m2 de área construída, e que funciona realmente como uma unidade independente de negócios com áreas de Engenharia, Desenvolvimento de Produtos, Marketing e Vendas, dedicadas exclusivamente para o aftermarket. São 325 profissionais, dos quais 58 na área de vendas e promoção.

MA – Quais são os cursos e programas direcionados aos profissionais do setor?

ES – A empresa montou um centro de treinamento na unidade de São Bernardo do Campo (SP) para ministrar curso de motores para os reparadores e profissionais de vendas dos varejos e distribuidores. Em 2009 foram realizados 50 cursos de dois dias de duração nos quais foram treinados mais de 700 profissionais do setor. Temos também o Grupo de Promotores: 20 promotores visitam os varejos e aplicadores com o objetivo de promover a geração de demanda. Em 2009, foram realizadas mais de 17.000 visitas por esse grupo.

Equipe de vendas treinada e qualificada para prestar os serviços de vendas e pós-venda aos clientes. Os vendedores são, na maioria, engenheiros e técnicos que, além das atividades normais de vendas, também prestam o atendimento técnico in loco.

Call Center: um moderno centro de atendimento ao consumidor foi estruturado pela empresa, totalmente integrado com as áreas de Assistência Técnica, Vendas, Logística e Marketing, totalizando aproximadamente 5.500 ligações por mês.

Ações integradas de marketing e promoção com distribuidores: temos uma meta para realizar em 2010 mais de 300 palestras técnicas e motivacionais, mais de 500 eventos, 700 campanhas com os distribuidores e 40 visitas à fábrica, en-volvendo aproximadamente 70.000 profissionais do setor. São mais de cinco eventos realizados todos os dias por nossa equipe.

Criação do projeto SIM (Sistema Inteligência Competitiva Mahle) com o objetivo de identificar as necessidades do mercado e desenvolver novos produtos via produção local ou de nossas plantas em outros países (time to the market).

Um projeto de grande destaque é o lançamento da linha completa de Turbos. Para isso, foi criada uma joint venture com a Bosch para produção de turbocompressores, com a formação de uma nova empresa comum, denominada “Bosch Mahle Turbo Systems”.


 
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