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Para o varejista evitar mais prejuízos tem de conhecer bem o fornecedor, recomenda Francisco Wagner, presidente do Sincopeças-SP |
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No balcão das lojas de autopeças ainda é pequeno o percentual de pessoas que têm “coragem” de desembolsar mais para comprar determinadas marcas. Nesse segmento, a opção pelo preço continua hoje tão forte quanto antes. Entretanto, o consumidor está mais exigente.
Pressionadas de um lado por essa realidade e, por outro, pela competitividade, diversas indústrias de componentes automotivos encontraram na China o caminho para se dar bem nos negócios.
Continuaram fabricantes, mas passaram também a ser importadores e distribuidores de unidades chinesas. Para os lojistas essa operação não fazia diferença porque, independentemente da origem da mercadoria, eles continuavam trabalhando com marcas tradicionais. Entretanto, no embalo desse sucesso surgiram novos players – importadores independentes – trazendo as mesmas marcas e do mesmo local (China), porém, com preço ainda mais atrativo. Seguindo a lógica do consumidor, diversos varejistas fizeram a opção pelo preço, e misturaram, no mesmo estoque, mercadorias de dois ou mais fornecedores.
Tudo ia bem até quando surgiram os problemas técnicos. Apesar de reconhecerem a origem da peça como sendo legítima da marca, as unidades brasileiras não ofereceram garantia para esses produtos. “Os lojistas ficaram em situação difícil, pois nem a fábrica local nem o importador assumiram a responsabilidade”, confirma Francisco Wagner de La Torre, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos no Estado de São Paulo (Sincopeças-SP).
“O prejuízo, então, ficou na maior parte com o varejo, e em menor escala, com a própria oficina.” Segundo o presidente da entidade que representa os lojistas de São Paulo, depois de enfrentar esse transtorno os empresários tomaram medidas para evitar novos problemas. Mas, ele informa que a importação de peças chinesas para o mercado de reposição brasileira ainda é muito alta.
“É grande e preocupante”, afirma. Ele relembra que o hábito surgiu com as próprias fábricas, mas, o rápido crescimento da demanda local e a falta de produtos abriram espaço para todo tipo de empresas, “das sérias às de fundo de quintal”.
Francisco Wagner reconhece que em determinado momento os produtos chineses até ajudaram a equilibrar o mercado, por meio da lei da oferta e da procura. “Quando ocorreram problemas de suprimento, os importados foram fundamentais para manter os preços reprimidos. Eles contribuíram, inclusive, para combater o cartel do aço. Do contrário teríamos visto uma explosão inflacionária nesse segmento”.
O líder setorial disse que atualmente muitas fábricas continuam a fazer importações de peças de sua própria marca. Acrescentou que, embora os produtos sejam para todos os sistemas do carro, há uma maior incidência de rolamentos. Em sua observação, e com base nos números de mercado, ele estima que os piratas representam 5% de todas as peças comercializadas no mercado de reposição. Sobre mecanismos de proteção que o varejista deve utilizar para se prevenir de prejuízos, o presidente do Sincopeças-SP sugere que o lojista não se empolgue somente com o preço; que o comerciante pesquise o passado do importador e a consistência do negócio.
No que se refere à qualidade dos produtos a serem adquiridos, a solução é esperar a concretização das normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). "Todas as peças certificadas estarão dentro dos padrões. Trata-se de uma excelente referência que nos dará segurança", completa o presidente.
Histórico
Setor de autopeças enfrenta, hoje, situação similar ao de brinquedos nos anos 90
A transformação de indústrias locais em distribuidoras de produtos chineses não é uma novidade em nosso país. O que ocorre agora com o segmento de autopeças tem semelhanças – e algumas diferenças – com o que aconteceu com o setor de brinquedos nos anos 90.
Espremidos pela competitividade mundial e pelo valor da moeda brasileira – em certo período o real chegou a valer mais que um dólar – os fabricantes nacionais perderam mercado para os importados. A saída encontrada pelos empresários foi a de desativar parcialmente (em alguns casos, mais de 80%) as linhas de montagem, demitir funcionários e terceirizar a produção de carrinhos, bonecas e outros produtos na China. Eles tiveram a preocupação, porém, de manter suas próprias marcas.
O segmento chegou, de fato, à beira da temida desindustrialização. O caos total foi evitado graças às ações da Associação Nacional dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), que convenceu o governo a criar salvaguardas para produtos importados da China. A taxação – cerca de 35% – trouxe de volta o equilíbrio entre custos, ou seja, com o importado mais caro, passou a compensar produzir localmente.
Levando-se em conta o estágio atual da indústria de autopeças, o setor não enfrenta os mesmos riscos, posto que há um excesso de demanda local e a maioria das fábricas operam a plena capacidade. Ademais, essas fábricas alegam que estão apenas comprando de suas unidades chinesas. A maioria sequer admite essa prática. Contudo, segundo Francisco Wagner de La Torre, cada vez mais indústrias locais estão se convencendo que é melhor terceirizar a produção na China.
Ao mesmo tempo já existe caso, comprovado, de pequena indústria de autopeças (instalada na capital paulista) que continua registrada como fábrica, mas se tornou distribuidora de produtos fabricados na China!
Alguém pode dizer que se trata de um ou outro caso. Mas, não é preciso se chegar à beira do precipício para tomar providências. Esse é o momento, pois a crise econômica, que volta a ameaçar países da Europa e os Estados Unidos, pode refletir mais tarde no mercado local.
É uma pena que a solução para o setor de brinquedos não sirva totalmente de benchmarking. Afinal, saída pela salvaguarda agora está mais difícil, desde que o governo brasileiro reconheceu a China como economia de mercado. |