Edição 186 - Matéria Especial
 
Peça Nova Por Mais Tempo
Falta de manutenção preventiva, uso de combustíveis adulterados e até maus hábitos de direção podem encurtar em muito a vida dos componentes automotivos. Em alguns casos, os itens podem durar até 80% a menos do que deveriam
 

Cléa Martins e Patrícia Larsen

 

  Peça Nova Por Mais Tempo
   
  Filtros automotivos
  Os filtros têm garantia desde que respeitada as recomendações do fabricante
   
  Bateria Heliar
  As baterias podem durar até 80% menos sem a manutenção
   
  Bico injetor danificado
  Alguns componentes do carro sofrem danos por erros na instalação e o uso de combustível adulterado, como bomba de combustível, válvulas e bicos injetores, pistões e catalisadores
   
  Freio
  A falta de manutenção preventiva é a grande “vilã” do freio
   
  Filtro
  A má qualidade dos agentes externos, como lubrificantes, ar e combustível, podem diminuir a vida útil dos filtros
   

A cena do cliente que volta à oficina para realizar um serviço antes do tempo determinado não é novidade para nenhum mecânico. Assim como também não é raro que consumidores apareçam nas lojas de autopeças reclamando de componentes e exigindo sua troca.

No entanto, segundo os fabricantes de autopeças, a maioria dos defeitos apresentados por algum item ainda dentro do seu prazo de validade é ocasionada por problemas que em nada têm a ver com erro de produção ou qualidade do componente. “Esse é um tema importante, pois a maioria dos componentes, como os dos sistemas de suspensão ou de frenagem por exemplo, tem a vida encurtada decorrente de fatores como erro de aplicação, péssimas condições do piso e falta de manutenção preventiva”, afirma Jair Silva, supervisor de Serviços da Affinia Automotiva. Nestes casos, os donos de carros não têm direito à garantia dada pelas fábricas, que possuem uma equipe treinada para análise dos itens defeituosos.

“Oferecemos garantia contra qualquer defeito em nossos produtos, desde que eles sejam armazenados e instalados conforme nossas recomendações e também do fabricante do veículo”, explica Roberto Rualonga, gerente de Assistência Técnica da Sofape, fabricante dos filtros Tecfil.

Rualonga diz ainda que depois da inspeção, se for comprovada a falha do produto, a empresa ressarci qualquer prejuízo que o dono do carro tenha tido por causa do defeito no item. No entanto, é improvável que isso aconteça.

“Nossos processos fazem com que as chances de defeitos em nossos produtos sejam praticamente nulas.” Na tentativa de diminuir os pedidos indevidos de garantia, a Bosch disponibiliza no link Autopeças do seu site uma vasta área sobre seus processos de garantia.

Por meio dele, os clientes aprendem a analisar visualmente os produtos antes de encaminhá-los à empresa. Com isso, o processo se torna mais ágil e, dependendo do estado do item defeituoso, o cliente pode até descobrir o motivo pelo qual ele apresentou problemas. “No passado, devido à falta de informações, tínhamos inúmeros pedidos improcedentes de garantia para estudar. Hoje, apenas 3% desses pedidos estão com irregularidades”, comenta Daniel Lovizaro, engenheiro de Assistência Técnica da divisão Automotive Aftermarket da Bosch.

As baterias, por exemplo, são componentes que podem durar até 80% menos caso os períodos de manutenções do veículo não sejam respeitados ou a peça não seja corretamente aplicada.

Batidas ou ralados na caixa ou tampa do produto, além de polos quebrados, refeitos ou furados, são alguns dos exemplos que eliminam o item da garantia.

“Também não aceitamos produtos com tampas e rótulo violados ou que demonstrem defeitos durante o teste elétrico do acumulador. Esses são alguns dos sinais de má utilização do componente”, afirma Marcos A. Randazzo Sodré Júnior, engenheiro de Aplicação da Johnson Controls, detentora da marca Heliar.

Prevenção
Para evitar problemas ocasionados pela falha na aplicação os fabricantes de autopeças apostam cada vez mais em programas de treinamento e distribuição de material técnico sobre a correta instalação de seus produtos.

A ZF Sachs, por exemplo, conta com uma equipe técnica que realiza treinamentos em todo o território nacional.

“A garantia Sachs cobre o que comprovadamente apresente defeitos causados pela manufatura ou matéria-prima empregada. Por isso trabalhamos forte no treinamento dos reparadores, para provê-los de conhecimento técnico sobre a correta instalação.

Peças recondicionadas por terceiros; alteração das características originais do produto; final da vida útil da peça; aplicação incorreta da peça; erros na instalação e montagem; avarias por transporte ou armazenagem e contaminação por óleo ou graxa não são cobertos pela garantia”, conta Milton Kubota, coordenador de Assistência Técnica da empresa.

O incentivo à manutenção preventiva é o caminho mais seguro para que reparador e dono de carro consigam fazer com que o item aplicado no veículo realmente renda tudo o que é capaz.

“Não se pode esquecer que as peças novas colocadas em um carro fazem parte de um sistema que deve estar em boas condições de uso e trabalhando de forma harmoniosa. Não se deve, por exemplo, substituir os amortecedores e deixar coxins e batentes velhos, desgastados, ou substituir as pastilhas e deixar os discos com desgaste e o freio traseiro operando de forma inadequada”, explica Silva, que lembra: “Cabe ao mecânico mostrar isso ao seu cliente”.

O Manual do Proprietário do veículo é um ótimo aliado dos reparadores e pode ser usado para mostrar ao cliente que a manutenção preventiva é a melhor maneira de manter seu carro funcionando e ainda economizar dinheiro.

Inimigos
Além da instalação errônea, alguns componentes do carro ainda sofrem com a ação de outros maus. O uso de combustível adulterado é um deles. Ele age diretamente sobre as peças do sistema de alimentação e pode acabar com itens como bomba de combustível, válvulas e bicos injetores, pistões e até catalisadores.

As condições das estradas também impactam de maneira direta sobre a durabilidade de muitas peças, especialmente as ligadas ao sistema de suspensão. Os maus hábitos que muitos motoristas têm ao volante também podem colocar em risco a vida de vários itens, como pastilhas de freio e embreagem.

Confira a seguir quais os principais inimigos de alguns dos principais componentes do veículo e entenda como a peça que você aplica ou vende pode durar por muito mais tempo.

Filtros
Esses componentes têm sua vida útil totalmente atrelada ao uso do veículo e aos agentes externos, como lubrificantes, ar e combustível. Quanto pior a qualidade desses agentes, menos essas peças vão durar. Simples assim. Por isso, atenção ao que você recomenda ao cliente. “Os períodos de trocas indicados no manual do proprietário devem ser respeitados, levando sempre em consideração que quanto mais severa a atividade do veículo mais curto pode ser o período das trocas”, afirma Rualonga.

Baterias
Pode parecer exagero, mas a má aplicação ou má utilização da bateria automotiva pode resultar numa perda de até 80% de sua vida útil. Outros fatores como calor excessivo, má fixação e as descargas de longos períodos também contribuem para a degradação do material que armazena energia, custando perda de eficiência. Segundo Sodré, para fazer esse item durar um período maior é necessário manter a originalidade do veículo, fazer revisões do sistema elétrico do carro, principalmente do sistema de recarga da bateria, e não descarregá-la por longos períodos enquanto o motor do carro está desligado. Outra dica, os reparadores só devem aplicar no veículo um modelo de bateria com capacidade igual ao da bateria original do veículo, nunca inferior. “Opte por uma bateria que tenha maior corrente de partida. Esse valor pode ser identificado no rótulo pela sigla CCA. E, sempre que possível, teste eletricamente o carro antes de aplicar uma bateria nova, pois o problema persistirá mesmo com uma bateria nova”, conclui o engenheiro da Johnson.

Suspensão e freios
Para a linha de suspensão e direção a vida média gira em torno de 80 mil km, mas esse número pode variar para cima ou para baixo dependendo da condição do solo onde o veículo opera. Na reposição, os amortecedores têm troca sugerida em períodos de 40 mil e 50 mil km.
Na linha de freios convencionais, o material de atrito pode chegar a 40 mil km. Já na linha hidráulica, os componentes podem ultrapassar os 70 mil km, desde que se faça a substituição do fluido de freio recomendada pela montadora.
Entre os principais inimigos dos componentes que compõem esses sistemas destaca-se a falta de manutenção preventiva ou até mesmo a montagem errada dos itens. Na linha de suspensão ainda é comum procedimentos como: travar a haste do amortecedor com alicate de pressão, utilizar martelo ou marreta para deslocar o pivô ou o terminal ao invés de um sacador, apertar a suspensão com as rodas suspensas ou montar o pivô ou o terminal de direção novo em contrapeça desgastada, entre outros equívocos.
Na linha de freios não é diferente, afirma Jair Silva. “As pessoas ainda substituem apenas as pastilhas dianteiras, ignorando a manutenção necessária no sistema traseiro; isso provoca um desequilíbrio no sistema de freio e sobrecarrega o freio dianteiro, reduzindo sensivelmente a vida útil de seus componentes.”.

Sistema de embreagem
Milton Kubota, coordenador de Assistência Técnica da ZF Sachs, diz que a má utilização pode afetar de maneira drástica a vida dos componentes dos sistemas de embreagem dos veículos, que incluem itens como platô, disco, mancal e sistema de acionamento.
“A embreagem é um conjunto mecânico de desgaste e sua vida útil ou durabilidade depende da forma como é utilizada.” Por isso, Kubota defende a ideia de que o mecânico pode dar a seu cliente dicas de como zelar pela embreagem.
“Procedimentos que parecem comuns, como sempre sair em primeira marcha, não descansar o pé sobre o pedal de embreagem, não segurar o carro na subida pela embreagem, evitar excesso de carga, evitar acionar e desacionar o pedal bruscamente, além de evitar as arrancadas e as reduções bruscas, podem contribuir em muito para a maior durabilidade das peças.”
Durante a instalação, afirma o coordenador da Sachs, o reparador deve garantir que a superfície do volante do motor e o sistema de acionamento ofereçam condições ideais para o correto funcionamento da embreagem. Na dúvida, no site da empresa é possível ter acesso a uma vasta biblioteca técnica e catálogo de aplicação dos produtos.

Turbos
O sistema de sobrealimentação de motores automotivos é um item desenvolvido para longa durabilidade, desde que os usuários sigam as orientações dos fabricantes de veículos em relação ao uso e à manutenção.
Só para se ter uma ideia, existem clientes que afirmam ter veículos com turbos Garrett que já ultrapassaram a marca de 2 milhões de quilômetros percorridos.
Segundo Ricardo Rampaso, gerente de Vendas e Marketing da Honeywell, fabricante dos turbos Garrett, entre as principais causas deproblema nos turbos estão a insuficiência de lubrificação, por baixo nível de óleo, vazamento nas conexões do turbo ou agregados, obstrução nas tubulações, excesso de óleo carbonizado na galeria da carcaça central, excesso de temperatura na saída de gases e utilização de óleo lubrificante inadequado. “Materiais injetados no sistema ou nas tubulações durante serviços de manutenção (falta de cuidado, limpeza inadequada, ou elemento do filtro de ar saturado), além da falta de manutenção do veículo, também são bastante prejudiciais ao sistema de sobrealimentação.".
Para evitar problemas, a empresa lançou o programa de instalação assegurada por intermédio da sua rede de Centros de Serviço Avançado Garrett. O programa é identificado por um selo aplicado no certificado de garantia do turbo novo ou remanufaturado pela própria fábrica.
Para os donos de carros turbinados e reparadores, Rampaso dá algumas dicas:
– Ao trocar o filtro de óleo, encha o novo filtro de óleo com óleo também novo, instale-o e gire o motor, sem dar a partida, até o sistema de óleo estar com a pressão correta. Depois, funcione o motor em marcha lenta o tempo necessário para a pressão do óleo se estabilizar.
– Nunca desligue o motor em alta rotação (o motor pára, a turbina não e vai faltar óleo para a lubrificação dos componentes móveis do turbo). Também é preciso aguardar cerca de 30 segundos, após ligar o motor, para colocar o carro em movimento.

Catalisadores
A vida útil de um catalisador instalado de série no veículo é de 80 mil km. Para baratear seu preço na reposição, já que esse é um produto feito de componentes nobres, o produto ganhou uma versão com uma vida útil 50% menor. Mas mesmo o alto custo da peça não faz com que o cuidado para preservá-la seja maior. Pelo contrário, são poucos os proprietários que fazem a checagem e a manutenção preventiva do veículo. O resultado disso: itens caros como o catalisador são perdidos muito antes do período previsto.
Carlos Eduardo Moreira, gerente de Desenvolvimento da Umicore, que desenvolve as colmeias catalíticas dentro dos catalisadores, explica que a deficiência na correta manutenção de velas, bobinas e cabos de ignição pode acarretar em um processo indevido de combustão, o que faz com que o combustível não queimado corretamente nas câmaras de combustão seja incendiados dentro das cápsulas catalisadoras.
Essas queimas danificam as paredes das colmeias e inutilizam o produto.
O combustível adulterado é outro vilão poderoso dos catalisadores. Solventes e outros tipos de misturas usadas para enganar o consumidor também queimam na cápsula catalisadora e fazem com que a temperatura de funcionamento do componente chegue a 1.200º C.
A dica para o dono de carro e mecânico é: nunca empurre o veículo quando ele ainda está quente. Segundo Moreira, isso manda combustível direto para o catalisador e a queima acaba acontecendo por lá. O melhor para quem quer fazer o carro pegar no tranco é: esperar o motor esfriar. Logo depois da instalação do componente, ligue o carro e espere 15 minutos antes de sair com ele. Isso porque a cerâmica precisa de um tempo para se ajustar à cápsula. Do contrário, ela pode ficar solta.
Ao escolher um catalisador, desconfie dos produtos que custarem menos de R$ 250 e dos que não forem comercializados em embalagens. Dados da Cetesb mostram que 25% dos catalisadores comercializados hoje são falsos.

Sistemas de alimentação
O uso de combustíveis adulterados também é sem sombra de dúvida o arqui-inimigo dos componentes do sistema de alimentação dos veículos, sejam eles de ciclo Otto ou diesel. Nos veículos eletrônicos de ciclo Otto, por exemplo, as bombas de combustível são destruídas precocemente por solvente, que afetam o tratamento interno de seus componentes.
Além da péssima qualidade dos combustíveis vendidos nas cidades brasileiras, alguns procedimentos inadequados na instalação dos itens podem comprometer a vida útil deles e de demais sistemas e com ponentes. Segundo Daniel Lovizaro, engenheiro de Assistência Técnica da Bosch, a tentativa de adaptação das bombas elétricas de combustível de custos menores em carros que exigem outros modelos de bomba é um crime. “Na tentativa de reduzir os custos, alguns mecânicos cortam e emendam o chicote desse item. O que é um perigo, já que estamos falando de corrente elétrica dentro de um tanque de combustível. Tal procedimento, além de eliminar por completo qualquer garantia que o cliente tenha direito, ainda coloca vidas em risco.” No quesito manutenção, os sistemas de injeção de motores a diesel ainda sofrem com a falta de limpeza dos tanques. “É comum encontrar caminhões com até ¾ de água no tanque. A drenagem é vital para o bom funcionamento do sistema e deve ser feita periodicamente”, diz Lovizaro.

Pneus
Ok, as estradas do País não colaboram para a durabilidade dos pneus. Mas a falta de manutenção e alguns cuidados podem ajudar a fazer com que eles durem menos.
O mais importante e simples desses cuidados é quanto à manutenção da pressão dos pneus, que deve ser feita a cada 15 dias, de acordo com a recomendação do fabricante. Segundo dados de Michelin, um pneu com 25% a menos de pressão durará menos da metade do que deveria durar. O rodízio dos pneus é uma prática importante e ajuda a controlar de maneira mais uniforme o desgaste dos pneumáticos.
Assim como o alinhamento do veículo, que corrige os ângulos da suspensão.

 
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