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Talvez ainda não seja na próxima década que o mundo conquiste uma frota de veículos inteiramente sustentável, mas já contará com automóveis bem menos poluentes do que os atuais. O uso de sistemas que permitem maior rendimento dos motores ao mesmo tempo em que reduz o consumo energético do carro, além da abolição de componentes até então considerados importantes e insubstituíveis, somada a adição de materiais inovadores e recicláveis, permitiram que a indústria automotiva lançasse nos últimos anos tecnologias que transformaram por completo o mundo automotivo e sociedades inteiras.
Haja vista o sucesso dos carros bicombustíveis no Brasil. Lançado no País em 2003 pela Volkswagen, o motor flex, como ficou conhecido, equipa hoje 88% de todos os carros vendidos por aqui e permite que o brasileiro escolha entre o álcool e a gasolina. “A indústria automotiva vem conseguindo, cada vez mais, mostrar que pode evoluir sem deixar de lado o meio ambiente. A conquista flex, realizada aqui no Brasil, permitiu a utilização do etanol.
Passamos então a consumir um combustível renovável e com menores taxas de emissões de poluentes. Hoje, grande parte da frota nacional já utiliza esse sistema e a tecnologia está migrando para motocicletas e veículos comerciais pesados e off roads”, afirma Roberto Stein, diretor de Engenharia e Vendas da Delphi Powertrain para América do Sul.
Se é ao meio ambiente que boa parte das mudanças tecnológicas no veículos beneficia, foi por causa dele também que os engenheiros chegaram até elas. Na última década os níveis de emissões de poluentes permitidos por programas de controle como o Euro, nos países europeus, e o Proconve, no Brasil, fizeram com que a indústria buscasse alternativas para fazer com que os carros emitissem cada vez menos gases nocivos, como o CO2 (monóxido de carbono) ou o NOX (óxido de nitrogênio).
Só no ano passado, dezenas de empresas lançaram produtos, de motores e compressores até rolamentos e freios, capazes de diminuir a queima de combustível e assim impedir a emissão de mais poluentes no ar. Segundo alguns fabricantes de autopeças e veículos, faltaram no País nesses últimos anos mais leis e programas, como o de inspeção ambiental da cidade de São Paulo, para garantir que a busca por produtos mais sustentáveis fosse um compromisso de todos. “Esperamos que o governo se sensibilize e implante programas de inspeções federais”, afirmou Besaliel Botelho, presidente da SAE durante evento promovido pela entidade no final do ano passado cujo tema foi justamente a sustentabilidade da indústria automotiva. Mas com ou sem incentivos governamentais o fato é que a indústria automotiva terá que achar produtos e tecnologias cada vez mais limpas.
“Existe uma tendência muito forte no mercado automotivo global de buscar produtos sustentáveis e ecologicamente corretos. Podemos citar como exemplo a eliminação de clorofluorcarbono (CFC) na composição de poliuretanos utilizados na fabricação de componentes com enchimentos em espuma, como os bancos, volantes e painéis de instrumentos”, diz José Donizeti da Silva, diretor de Engenharia da Plascar.
Ainda segundo Silva, a Plascar aboliu o uso de CFC e HCFC – outro gás nocivo à camada de ozônio – em seus produtos em 1994. Hoje, a empresa é reconhecida no mercado pela ousadia em lançar produtos confeccionados com matérias-primas naturais, como as fibras de coco, do bagaço da cana-deaçúcar ou a juta, entre outras tantas, ou recicladas, como as garrafas PET. Um ponto negativo na história de criar novas tecnologias e produtos mais verdes é o custo. Desenvolver e manter estudos permanentes para a busca de componentes mais limpos não é nada barato. Geralmente os engenheiros das empresas que mantêm esses projetos trabalham anos a fio antes de disponibilizar ao mercado um novo item; além disso, até que esses produtos conquistem o mercado, sua escala de produção é reduzidíssima. “Geralmente a produção mais artesanal de peças feitas com fibras, por exemplo, exige uma mão de obra mais excessiva, o que impacta diretamente no custo final do produto”, diz Silva.
Assim, vencida a etapa de lançamento, é a vez dos fabricantes de autopeças convencerem as montadoras a aplicar os novos itens em seus carros e, por sua vez, a indústria precisará mostrar ao consumidor final os benefícios de se investir em produtos mais sustentáveis. Quando todos estiverem devidamente convencidos e a escala produtiva desses produtos subir, os preços cobrados por eles tendem a cair, assim como a poluição hoje derivada da indústria. “O movimento mundial por tecnologias que afetem menos o meio ambiente, aliado às ações governamentais de incentivo, devem acelerar a entrada dessas soluções no mercado”, acredita Stein.
Rol verde
Confira alguns componentes e sistemas automotivos apresentados pela indústria no último ano capazes de diminuir o impacto ambiental negativo causado pelos veículos:
Partidas mais limpas
O Flex Start, da Bosch, é o sistema de partida a frio que dispensa o uso do tanquinho de gasolina para veículos com tecnologia Flex Fuel. O primeiro modelo equipado com essa tecnologia é o Polo E-Flex, lançado pela Volkswagen. O adeus ao tanquinho garante melhor resposta do motor à aceleração e contribui para a conservação do meio ambiente, já que, com o novo sistema de gerenciamento, acionado eletronicamente, pode reduzir em até 40% a emissão de poluentes causada pelo funcionamento do veículo. “A substituição do tanquinho de gasolina pelo novo sistema de partida a frio é uma tendência que, gradativamente, deverá ser adotada por todos os fabricantes de veículos Flex Fuel”, afirma Fábio Ferreira, gerente de Desenvolvimento da Divisão Gasoline Systems da Robert Bosch América Latina.
“Uma nova galeria de combustível, com elementos de aquecimento integrados, e uma unidade de controle de aquecimento foram especialmente desenvolvidas para esse sistema. Isso garante que a temperatura do combustível atinja valores mínimos para uma partida segura a baixas temperaturas e, ao mesmo tempo, oferece um controle preciso da temperatura do combustível em todas as condições de operação do motor”, explica Marcos Araújo, gerente de Desenvolvimento do Sistema Flex Start.
Outra empresa que colocou de lado o tanquinho de gasolina instalado na parte dianteira dos carros bicombustíveis para a partida foi a Delphi. A nova tecnologia proposta pela companhia aquece o combustível durante a partida do veículo, dispensando a injeção de gasolina nas primeiras voltas do motor.
Segundo a empresa, os carros abastecidos com álcool serão capazes de ligar sem problema mesmo com um frio de -5° C. “Esse novo sistema de partida a frio ajudará a reduzir ainda mais a produção de poluentes nos automóveis que utilizam etanol, pois diminui drasticamente a ‘fase fria’ do motor (os primeiros momentos depois da partida), período que mais emite poluentes”, explica Roberto Stein, diretor de Engenharia e Vendas da Delphi Powertrain para América do Sul.
Vida prolongada
Com as novas bandas de rodagem da Vipal – Ecotread e Greentread –, usadas na reforma dos pneus, é possível reduzir o consumo de diesel dos caminhões em cerca de 10%. Pelo menos é o que garante Eduardo Sacco, gerente de Marketing da companhia.
A formulação dos novos produtos é segredo, mas as avaliações mostraram que, além da redução no gasto energético, as novas bandas ainda duram no mínimo 6% a mais que as bandas feitas com componentes convencionais. Por ano, os novos componentes fazem com que o carro queime 50 mil litros de diesel a menos que as convencionais. Isso significa a emissão de 130 toneladas a menos de CO2 na atmosfera. Além disso, cada pneu reformado evita o uso de 57 litros de petróleo.
Carrocerias recicláveis
Já imaginou se a maior parte do veículo – a carroceria – pudesse ser reciclada? É exatamente essa ideia que defende a Abal – Associação Brasileira do Alumínio. Além de ter um índice de 100% de reciclagem, o alumínio ainda é 2/3 mais leve que o aço, o que tornaria os carros mais leves e mais eficientes. Com menor consumo de combustível é possível também reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Segundo a Abal, a diminuição no peso dos veículos em 100 kg reduz em 2,3 toneladas a emissão de CO2 por automóveis e em 6,3 toneladas por caminhonetes durante suas vidas úteis. Atualmente, itens como cabeçote e bloco de motor, entre outros, já são feitos com o metal.
Potência e economia
O VNT Dual Boost, da Honeywell, nasceu para fazer com que o motor gaste menos combustível e emita menos poluentes. O componente é constituído por dois rotores de compressor dentro do mesmo turbo, com aletas que se abrem ou fecham – dependendo do regime de rotação do motor – para proporcionar melhores níveis de torque e potência ao veículo. Segundo José Rubens Vicari, diretor-geral da Honeywell Turbo Technologies, a superalimentação via turbocompressor contribuiu com os fabricantes de motores a diesel para atender aos limites do Conama, que são de 2 g/km de monóxido de carbono para os veículos comerciais leves movidos a diesel até 2013 (redução de 26%) e de 1,3 g/km para os automóveis a gasolina ou álcool até 2014 (menos 26%), com a média de 33%.
Cana sob medida
O motor Cursor E-100, da Iveco, é uma grande promessa para diminuir as emissões de poluentes e gerar ganhos para todos os tipos de indústria, mas principalmente a sucroalcooleira. Com chegada prevista ao mercado brasileiro para o começo de 2011, essa nova tecnologia pode ser usada em todos os transportes atualmente movidos a diesel.
De acordo com Giovanni Violano, responsável pela Plataforma Motores Diesel FPT Mercosul, com o Cursor E-100 o maior ganho da adoção do etanol no lugar do diesel é, sem dúvida, ambiental, uma vez que sua combustão gera menor número de material particulado e diminuição da emissão do NOX.
Motorista mais consciente
A novidade da Magneti Marelli é um sistema Flex Terceira Geração com Nova Centralina (Família 7). A centralina identifica o nível de emissão de poluentes do veículo e, caso esteja acima do permitido, uma luz no painel acende avisando o condutor. A inovação está preparada para atender à nova norma do Conama, que torna obrigatório que 60% da frota de veículos zero km, a partir de 2010, seja equipada com o sistema de diagnose de bordo OBDBr2. Em 2011, 100% da frota nacional terá de ser equipada com esse sistema. Com a medida, o motorista poderá dirigir de maneira mais consciente e tomar atitudes que evitem que seu carro polua mais do que o recomendado, seja tirando o pé do freio ou mantendo a manutenção do possante sempre em dia.
Mil e uma alternativas
Em termos de inovação no uso de matérias-primas, a Plascar deu um show no ano passado. Apresentou autopeças e componentes feitos em fibras naturais, como de bananeira, na produção de peças de acabamento interno e externo. Elas ajudariam também na redução do CO2 gerado durante a fabricação. Isso porque, enquanto a produção de 1 kg de polietileno comum produz 2,5 kg de gás carbônico, a fibra natural produz o efeito contrário, de reter 2,5 kg do gás da atmosfera. O reaproveitamento de garrafas PET para produção de carpetes é outra das novidades da empresa. O poliol originário do plástico das garrafas plásticas mostrou-se uma alternativa aos petroquímicos. E as alternativas verdes da Plascar não param por aí. No ano passado a empresa apresentou ao mercado uma roda de plástico para moto, feita a partir de polímeros de alta performance.
Rolamentos mais eficientes
O rolamento E2 é a principal novidade da SKF para um mercado automotivo mais de bem com a natureza. Fabricado com uma gaiola de polímero especial, que permite lubrificação mais eficaz, o produto garante redução de até 30% de atrito em relação aos rolamentos convencionais. Segundo Mauro Luna, diretor de Vendas Industriais e Marketing da SKF do Brasil, o novo rolamento vai revolucionar o mercado nacional, pois permitirá que indústrias de todos os tamanhos e segmentos economizem energia e ainda reduzam as emissões de CO2 de seus processos produtivos. “Com o E2, um motor elétrico de 37 kW, usado em uma operação de 12 meses em 3.000 rpm, economiza 140 kWh e 46.000 g de CO2. Além disso, a peça está dimensionada para durar 10 anos, garantindo ao usuário um retorno sobre o investimento que pode variar entre 500% e 900%”, completa o executivo.
Carros elétricos: será esse mesmo o futuro?
Segundo ecologistas, ambientalistas e estudiosos em geral, não existe apenas uma solução energética para o mundo. É vital que cada lugar encontre sua matriz e que ela gere o menor impacto possível ao ecossistema, que já foi demasiadamente transformado pelo homem. Partindo deste princípio, os carros elétricos, vedetes do último salão internacional de veículos de Detroit, EUA, são uma alternativa na qual a indústria automotiva deve sim apostar suas fichas.
Não é por acaso que, no Brasil, em Foz do Iguaçu (PR), a Iveco e a Itaipu Binacional apresentaram no ano passado o Daily Elétrico, o primeiro caminhão do País movido a energia 100% limpa e renovável. O projeto foi desenvolvido em parceria pelas duas empresas com o objetivo de explorar as possibilidades da utilização da energia elétrica no transporte de carga e de passageiros, tendo em vista a busca da redução das emissões de carbono.
Para o projeto Itaipu Binacional–Iveco foi escolhido o modelo Iveco Daily 55C com entre-eixos de 3.750 mm. Na versão elétrica o veículo ganhou a denominação 55C/E. O protótipo do Daily Elétrico é equipado com três baterias Zebra, tem autonomia de 100 quilômetros com carga completa e desenvolve velocidade máxima de 70 km/h. Vazio, a velocidade máxima chega a 85 km/h. O tempo de recarga da bateria é de oito horas. A tecnologia pode ser aplicada em qualquer versão do Iveco Daily, seja chassi-cabine, furgão ou chassi de ônibus.
Um segundo protótipo elétrico já está planejado pela Itaipu em uma outra configuração da família Daily. A apresentação do veículo está prevista para o início deste ano.
Ficha Técnica
Daily Elétrico (protótipo)
Modelo: 55C/E Cabine Dupla
Sistema de propulsão: motor elétrico MES-DEA de corrente alternada, tipo assíncrono, trifásico, controlado pelo inversor de potência e refrigerado a água. Com 40 kW (54 cv) de potência nominal e torque de 129 Nm a 2.950 rpm. Pico de potência a 80 kW (108 cv) e pico e torque de 300 Nm a 2.950 rpm.
Velocidade máxima: 70 km/h (carregado) a 85 km/h (sem carga)
Comprimento: 6,9 metros
Entre-eixos: 3.750 mm
Peso Bruto Total: 5,5 toneladas
Carga útil: 2,5 toneladas
Baterias: 3 baterias do tipo Zebra Z5
Autonomia: 100 km
Recarga de bateria: 8 horas (a partir da bateria totalmente descarregada).
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