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| Edição 184 - Matéria de Capa |
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Admirável mercado novo |
| Passado o pior da crise econômica que abalou o mundo, dirigentes da indústria automotiva e consultores do setor afirmam que as empresas precisam se estruturar para um mercado cada vez mais exigente, enxuto e sustentável |
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| Texto: Cléa Martins e Patrícia Larsen |
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A última crise econômica não foi brincadeira. Abalou o mundo e colocou nomes de grandes corporações e conceituados administradores na bandeja. Até mesmo profissionais experientes foram surpreendidos. “O mundo já passou por crises antes, mas nada comparável à última. Vínhamos de um ritmo de quatro anos de crescimento abundante. Para os próximos dois ou três anos a previsão é de contrações e restrições. A maioria das economias entrará em recessão ou diminuirão seus ritmos de crescimento”, explicou Letícia Costa, vice-presidente da Booz & Company, em palestra promovida pela SAE Brasil para engenheiros e líderes do setor automotivo.
Passada pelo menos a pior fase da crise, o que ficou, diz a consultora, foi a constatação de que nada será como antes. Segundo Letícia, a cena mundial hoje é muito interessante porque, mais do que uma crise, essa é uma fase de rompimento: “Vivemos uma época de descontinuação, de quebra, por isso é mais difícil prever o que vem por aí”, afirmou.
Em relação à indústria automotiva, o baixo índice de produtividade nas linhas das fábricas, que hoje operam apenas 65% da capacidade de suas linhas instaladas no mundo, é um dos maiores problemas do setor para 2010.
A quebra dos EUA, que deixou de comprar o equivalente a US$ 1 trilhão no último ano, prejudicou muitos mercados. Nem mesmo os Brics – Brasil, Rússia, Índia e China – poderão suprir já nos próximos anos a importância do consumo dos EUA. “E olha que apenas 50% das perdas nos bancos foram reconhecidas. Acredito que só em 2011 entraremos numa fase de crescimento, mas desta vez mais sustentável e lenta. Não significa que voltaremos ao patamar que estávamos. O desafio das empresas será eliminar a capacidade não utilizada de produção. E isso exigirá reestruturações”, afirmou Letícia.
Volker Barth, executivo da O’Horizons LLC, diz que essa é a hora de empresários e executivos do setor promoverem a reestruturação de suas empresas: “Há muitos anos estamos sendo avisados sobre várias coisas que não iam bem e não nos preparamos para essa crise que tem dimensões nunca vistas por nós antes.
Mais de 200 mil trabalhos estão sendo fechados em várias plantas no mundo. A indústria norte-americana caiu mais de 45%. Temos agora que nos reestruturar e achar a melhor forma de atuar nessa nova realidade”.
Para Nils Tarnow, diretor da Management Engineers do Brasil, agora é hora dos executivos mostrarem o poder do bom gerenciamento nos negócios. E a primeira coisa que um gerente precisa entender, afirma Tarnow, é que o mercado é cíclico: “Muitas empresas só se preparam para crescimento linear. Quando se entende que o mercado vive em ciclos é possível se preparar e estudar a melhor forma de reagir em uma situação adversa”.
Otimismo
A cautela com que executivos e consultores falam do próximo ano não significa pessimismo. Muito pelo contrário. Klaus Bohler, vice presidente mundial de vendas e aplicações sistemas diesel da Bosch Alemanha, acredita que, apesar da condição crítica da economia global, existem no mundo oportunidades de crescimento: “O lançamento de produtos alternativos e inovações que atendam as legislações de emissões pode ser uma dessas saídas. Seria muito importante se tivéssemos uma legislação global para a emissão de veículos. Como não temos, precisamos adaptar nossas linhas de produção. Ninguém vai pagar por um motor Euro 6 se não precisar”.
Novas demandas
Foi-se o tempo em que crise significava contenção de gastos e de investimentos dentro das empresas. Pelo menos hoje as exigências de novos clientes e mercados obrigam as companhias a investir em novas tecnologias.
Bernd Wiedemann, conselheiro sênior do IAV GmbH, um dos principais centros mundiais de desenvolvimento para a indústria automotiva, com sede na Alemanha e filiais na Europa, Ásia e nas Américas do Norte e do Sul, diz que o futuro do setor automotivo está diretamente ligado ao poder de fabricantes de autopeças e sistemistas trabalharem em conjunto com as montadoras: “O futuro reserva novos veículos, players e menos emissões. Os desafios de hoje podem ser vistos como uma grande oportunidade de crescimento de mercado e quem assumir hoje os custos para desenvolver novos produtos poderá ser líder de vendas de amanhã”.
Paulo Cardamone, diretor da CSM Worldwide South America, afirma que, daqui para frente as mudanças de mercado dependem também das mudanças feitas pelo próprio consumidor: “Será que nossos filhos não vão pagar o mesmo que nós pelos mesmos veículos? Precisamos investir em tecnologias e novos processos para sermos capazes de fornecer para esse novo cliente produtos capazes de realmente satisfazê-lo”.
Ainda de acordo com Cardamone, na América Latina, onde a maioria dos países vive sob um inédito controle da inflação e os governantes tomaram medidas de incentivo às vendas, os negócios foram menos afetados pela crise que em mercados tradicionalmente consagrados:
“No Brasil, a redução do IPI deu à população a impressão de que estava tudo bem. Além disso, o crédito disponível subiu e as taxas baixaram. Tudo isso segurou realmente a crise por aqui”. Em 2010, segundo o consultor, a estabilidade que impera no mercado latino fará os consumidores continuarem comprando, mas os empresários devem ficar atentos: “Teremos novos clientes, além de um cenário e políticas governamentais igualmente novos. Isso sem falar na entrada de outros players no mercado local, que devem esquentar ainda mais a concorrência do setor automotivo”.
Que venha 2010
No mercado de reposição automotiva nacional o clima para 2010 também é de otimismo, embora os líderes do setor saibam que o sucesso daqui para frente vai demandar mais do que nunca investimentos em lançamento de produtos, marketing e capacitação profissional, além de um bom plano de gerenciamento. Veja os conselhos de alguns desses líderes sobre o que fazer e o que evitar em 2010:
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“As empresas devem continuar investindo nas pessoas e tentando profissionalizar sua equipe o máximo possível, pois as companhias não são apenas feitas de produtos e dinheiro. Por outro lado, é bom evitar o clima de que a crise já terminou e de que 2010 será um mar de rosas. Ele será um ano de muitos desafios e, sobretudo, de muito trabalho.”
Pedro Molina Quaresma, diretor da Car Central (Roles) |
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“O investimento na dobradinha informação e relacionamento será a chave do sucesso em 2010. Já a escolha por produtos sem origem legal, segura e confiável não é saída para nenhuma crise e pode prejudicar a empresa que não pensar nas consequências.”
J. Angelo B. Sturaro, diretor Cobra Rolamentos |
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“Nossas perspectivas para 2010 são positivas, mas bem realistas. Os sinais de reaquecimento são muito claros. A economia brasileira já está dando sinais muito efetivos de recuperação e os horizontes para 2010, 2011 e 2012 mostram se favoráveis. É claro que ainda existem riscos no ambiente externo e mesmo no interno. Porém, com toda a certeza, as evidências são positivas e nós estamos preparados para surfar essas oportunidades.”
Rodrigo Carneiro, diretor Comercial da Distribuidora Automotiva (Sama) |
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“Neste ano as empresas precisarão contar com um plano de negócios consistente que contemple cenários diversos com o objetivo de evitar riscos desnecessários. E, ainda, centrar foco no cliente, com transparência nos negócios e antecipando as necessidades. Os investimentos no portfólio de produtos devem ser potencializados prevendo o aumento na capacidade de produção e continuidade no que fazemos de melhor. Por outro lado, as ações e decisões sem base em uma análise crítica e focadas apenas em curto prazo levarão à perda de identidade ou prejuízos. Outra ação que deve nortear as empresas de autopeças é a de monitorar a demanda. Isso pode evitar o desbalanceamento dos estoques e a pressão sobre os preços no mercado.”
Jorge Schertel, presidente da Affinia |
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“Pensar em novidades, lançamentos e na ampliação do portfólio será muito importante em 2010. Com o aumento das campanhas de incentivo à manutenção preventiva e de projetos, como os de inspeção veicular obrigatória, o mercado deve estar aquecido. Quem não investir em novas tecnologias, produtos e serviços ficará para traz. Por isso, é importante parar de pensar em crise e voltar a pensar em crescimento sustentável! Esse ano tem tudo para ser melhor que 2009. Basta acreditar e trabalhar forte”.
Edson Brasil, vice-presidente da Delphi Soluções em Produtos e Serviços |
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“Os empresários precisam encontrar formas de agregar valor ao relacionamento com seus clientes, focando suas ações em atributos que trarão diferencial competitivo do futuro. Agora, tratar tudo igualmente e não ter foco e escolhas são alguns dos piores pecados que se pode cometer nesse novo mercado.”
Douglas Lara, diretor de Aftermarket da ZF Sachs |
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“As empresas devem investir em ações de marketing, promoção e principalmente capacitação técnica. Devem também promover o diálogo com todo o elo da cadeia da reposição, o que estabelece uma relação de parceria entre todos. Assim evitaremos o amadorismo no setor, a fim de obter a eficácia no atendimento, com qualidade em produtos e prazos satisfatórios.”
Maurício Barbalho, presidente do Aftermarket Automotivo do Grupo Schaeffler América do Sul |
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“Focar na capacitação técnica das equipes de vendas e suporte ao cliente, essa é uma das maiores lacunas que nosso mercado deve preencher. No mais, é procurar não priorizar o preço em detrimento da qualidade. Ações como essas devem ser evitadas a todo custo porque, em médio prazo, só trazem prejuízos para as empresas.”
Ângelo Morino, diretor-geral do Aftermarket na América do Sul ArvinMeritor |
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