Edição 183 - Opinião
 
1929 - 2009
   
  Antonio Delfim Netto
  Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento.
email: contatodelfimnetto@terra.com.br

Há 80 anos a quebra da Bolsa de Nova Iorque deu início à mais longa e profunda recessão mundial da história moderna. Nos registros das crises econômicas, o período que se seguiu à “semana negra” (24 a 31 de outubro de 1929), foi pródigo em decisões equivocadas de chefes de governo, das autoridades econômicas, dos gestores financeiros privados (em algumas praças eram as mesmas cabeças) e até dos parlamentos. Em alguma medida, o conhecimento da história vem ajudando a evitar a reedição de alguns (não todos) erros dramáticos cometidos na época. Por exemplo:

Em 17 de junho de 1930, mesmo tendo manifestado sua contrariedade, o presidente Hoover sancionou a lei Smoot-Hawley, aprovada no Congresso dos EUA, elevando fortemente as tarifas comerciais, “em defesa da autossuficiência americana”. Produziu o efeito de generalizar as práticas protecionistas, o que paralisou o comércio entre as nações e aprofundou e deu longa vida à recessão em toda a economia mundial.

Do outro lado do Atlântico, alguns meses depois, pressionado pela oposição conservadora e pela “city londrina”, o gabinete “trabalhista” inglês (na realidade um gabinete de “coalisão”) elaborou um orçamento para 1931 com drástica redução nas despesas do governo. Com a recessão batendo à porta, reduziu substancialmente os recursos previstos para o incipiente programa de auxílio desemprego e foi fundo no corte de despesas com os salários do funcionalismo civil e militar, que já eram espartanos.

Os líderes trabalhistas foram convencidos que o rígido equilíbrio orçamentário manteria a valorização da libra esterlina, vinculada ao padrão ouro. A estabilidade financeira era exigência dos bancos, da grande imprensa conservadora e das entidades representativas da própria indústria britânica. A história, como todos sabem, é plena de acidentes. Num ancoradouro naval ao norte da Inglaterra, marinheiros e suboficiais da esquadra imperial, descontentes com a profundidade dos cortes salariais, se recusaram a obedecer ordens dos oficiais superiores para zarpar, no que ficou conhecido como o “Motim de Invergordon” (porto escocês). Pior que a desobediência, fato raro que implicava em severas punições, desandaram a entoar “the red flag”, o que foi interpretado como uma ameaça revolucionária, à semelhança dos motins de 1917 da marinha russa em São Petersburgo.

O susto produziu as consequências indesejadas: os mercados financeiros na Europa desabaram, a libra passou a flutuar, a Grã-Bretanha abandonou o padrão-ouro (e na sequência os demais países). O contágio da recessão não poupou nenhum país. Medidas protecionistas ampliadas afundaram a economia global numa década de depressão, quando milhões de trabalhadores perderam a esperança de recuperar seus empregos.

 
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