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Marcelo Mariaca é presidente da Mariaca, parceiro global para o Brasil da Lee Hecht Harrison e da InterSearch Worldwide Ltd., e professor do MBA da BBS – Brazilian Business School, associada à Universidade de Richmond (EUA). |
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A atual e devastadora crise mundial, desencadeada pela quebra das instituições de crédito nos Estados Unidos, tem gravidade similar à Grande Depressão de 1929 e consequências comparáveis com os escândalos corporativos que eclodiram no início do novo milênio, que erodiram o patrimônio de milhões de investidores, fragilizaram empresas e abalaram a con-fiança nos negócios. Na recessão atual, houve ruptura dos compromissos éticos de importantes empresas e instituições financeiras que inflaram ativos, maquiaram balanços, resultados e preços de ações e ajudaram a aquecer a compra e venda de valores sem lastro no mercado de capitais, levando o então presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, a classificar o momento como uma “exuberância irracional”.
Nossa crise atual demorou para ser criada e foi anunciada durante mais de uma década.
Foi consequência da total desregulamentação do governo Bush (que, em tese, esperava que os mercados se autorregulamentassem), somada a flagrantes faltas morais (como o caso das empresas do ex-vice-presidente norte-americano Richard Cheney, que faz a segurança privada do Iraque, além da incrível pirâmide financeira do ex-CEO da Nasdaq, entre outras) e exacerbada pelos juros baixos do próprio Greenspan. Um coquetel explosivo. Só para elucidar um desses dilemas morais, o mercado aceitou negociar títulos hipotecários transformados em derivativos, que aumentaram de forma artificial o balanço de grandes empresas, e, consequentemente, os rendimentos e bônus de altos executivos.
Em outros casos, executivos das funções financeiras e do mercado de capitais fizeram desastradas apostas em operações com derivativos – incluindo mercados de moedas –, o que resultou em prejuízos para acionistas e para as próprias empresas.
As surpresas desagradáveis não se restringiram ao primeiro mundo. O Brasil, há décadas convivendo com falcatruas e escândalos em alguns setores, foi também surpreendido pela gravidade de práticas que denotam falta de ética em algumas das melhores organizações que, aparentemente, estavam acima de qualquer suspeita.
Esses aspectos morais da crise levam a uma série de questionamentos. Será que executivos principalmente de áreas financeiras não têm preparo suficiente para lidar com riscos? Ou será que foram movidos pela ganância e pelo descaso com o dinheiro dos investidores? Até que ponto esses executivos tiveram autonomia ou o consentimento dos CEOs e dos conselhos de administração para fazer jogadas arriscadas? Como as perguntas, as respostas também podem ser várias. Independentemente de qualquer julgamento, esses fatos levam a duas constatações. Primeiro, cada vez mais, as empresas precisam de executivos de excelente capacitação, com conhecimento de negócios e mercados, capacidade para produzir análises precisas de curto, médio e longo prazos e com radar em sintonia fina voltado para as complexas, sofisticadas, e por isso mesmo, perigosas engrenagens do mundo financeiro e do mercado de capitais.
A segunda conclusão é que as empresas precisam aprimorar ainda mais seus mecanismos de controle interno para evitar que a autonomia concedida a seus executivos não seja passaporte para aumentar os riscos ou encobrir desvios éticos.
Mais do que nunca, as empresas devem ampliar o conceito das boas práticas de governança corporativa para reduzir a possibilidade de fraudes e abusos e a volúpia do risco sem limites. Só assim sinalizarão para a sociedade que são empresas confiáveis. |