Dizem que a paixão do brasileiro é o futebol. No entanto, já perpetuou o cronista Nélson Rodrigues, um inflamado apaixonado por este esporte, que toda unanimidade é burra. Prova disso é que, se o futebol tem seus adeptos, outra febre cresce na mesma proporção em solo brasileiro: o Tuning ou a arte de modificar ou personalizar carros de passeio, sejam aqueles recém-saídos das fábricas ou modelos antigos.
Isso porque, se de um lado o grito da torcida arrepia os amantes do mundo da bola, de outro, uma legião de fãs não fica indiferente ao ronco de um motor turbinado ou o som grave de um subwoofer.
“Mais do que simplesmente gostar de carro, legal mesmo é deixar o veículo com a cara do dono, personalizar”, explica o publicitário Rodrigo Perini, um dos organizadores de um evento em São Paulo que reúne carros antigos e “tunados”, como são chamados os carros que ganham motores ainda mais possantes e aparelhagem de som que os fazem chacoalhar.
O evento, que ocorre sempre às terças-feiras no Sambódromo de São Paulo, é promovido pela Auto Show. No País, anualmente, acontecem pelo menos 50 feiras de tuning similares a essa.
Inspiração cinematográfica
Perini afirma que o filme “Velozes e Furiosos”, que estreou em 2001, foi o estopim do tuning no Brasil. “Antes do filme, os carros eram mexidos, mas nada comparado ao que vemos hoje.” Para ele, o Tuning não só descaracteriza o carro, mas também o aprimora porque “é um carro para não ser igual ao de todo mundo, e, sim, diferente”. Além do filme, programas de TV, como Overhaulin, da Discovery Channel, e o Pimp My Ride, da MTV, também colaboraram com o setor por aqui.
No entanto, diferentemente do filme nas telonas, os apaixonados por Tuning não montam seus carros para tirar rachas na rua. Além de ser proibido por lei, as competições exibidas nos filmes poderiam colocar em risco a vida de outras pessoas.
O empresário Rodrigo Elias, 25, conta que a paixão por carros equipados começou há, pelo menos, dez anos. As primeiras mudanças visíveis nos carros eram bem mais simples. “Mudava a cor, rebaixava, colocava uma roda maior”, disse. Agora ele está no segundo carro modificado, um Celta preto, com som personalizado, jogo de rodas e pneus importados. Elias explica que no Brasil já existem muitas peças e acessórios, mas considera que tudo ainda é muito caro. Também há componentes que ainda não são acessíveis no País.
O maior problema que um carro tunado enfrenta, no entanto, é a polícia. Rodrigo Elias destaca que ainda há muito preconceito. “É um absurdo ser tachado de rachador”, desabafa. “Uma pessoa que investiu R$ 20 mil, R$ 30 mil ou até R$ 40 mil em um carro não vai tirar racha. Não vou estragar meus pneus tirando rachas”, diz
o empresário.
Comunidade na internet
Elias é um dos integrantes da OCT (Organização Comunidade Tuning), ligada à Comunidade Tuning. Ele explica que existem estilos diferentes de modificação nos veículos. A Comunidade Tuning, que conta com mais de 5 mil integrantes reunidos num site sobre o assunto, é uma das mais conhecidas do Brasil na web e, além de promover eventos, reúne os interessados em fóruns de discussão com as novidades.
Frederico Viebig, 25, integrante da OCT, também credita ao filme “Velozes e Furiosos” o marco pela paixão em carros tunados. Na mesma época, ele tirou a CNH (Carteira de Habilitação Nacional) e decidiu que teria um carro “tunado”. Já está no seu segundo carro modificado. O pai sempre foi contra as modificações. Por isso, Viebig revela que, junto com o segundo carro, teve que comprar também uma capa para escondê-lo. No entanto, em menos de uma semana o pai descobriu e perguntou: “Você não vai fazer aquilo com esse carro também, vai?”, lembra Viebig. A pergunta, em forma de apelo, não funcionou. O Peugeot 2006 1.6 dele já estava modificado. Foram trocadas as lanternas e instalado um equipamento de som personalizado. O pai acabou se rendendo ao hobby do filho.
Há 40 anos
O motorista José Luiz sempre gostou de carros. Mesmo sem imaginar, ele já “tunava”. O primeiro foi um Simca GTX, no ano 1969, que ele modificou ao trocar as rodas e alargar o paralama. Mais tarde, entre 1972 e 1974, ele modificou um Karmanguia. “Tirei os parachoques”, conta, sorrindo. Mais tarde, comprou um Maverick Venture, também modificado.
O carro atual é um Calibra DTM, alemão, que ele adquiriu zero quilômetro em 1994, sua maior paixão. A primeira modificação foi rebaixar, mas, segundo ele, “ficou muito baixo para andar”. Depois, José Luiz mandou fazer um motor mais potente e, por sugestão de um amigo, mandou o carro para uma funilaria no Paraná, onde o carro foi redesenhado. “Demorou um ano mais ou
menos”, conta.
O resultado da modificação não agradou o dono num primeiro momento, mas o trabalho dos mecânicos foi salvo pelo filho mais novo do motorista que deu a dica certeira: “Põe uma boca de tubarão na frente, pai”. A frente atual, desenhada pelo filho, dá ao carro um ar de maldoso, a exemplo dos desenhos animados. José Luiz revela que quando saía para passear com seu Calibra as pessoas na rua pediam para tirar foto. “Fazia sucesso”, completa. Hoje, ele é um dos integrantes da Comunidade Tuning.
Além de diversão, os carros são preparados também para as competições. Alguns conseguem patrocínio de fabricantes para deixar seus carros dignos de filme. O enfermeiro Sérgio Profeta e o corretor de seguros Daniel Bortoletto têm, em comum, além da paixão por automóveis, carros premiados. Ambos possuem Mazdas MX3 com vídeogame dentro do carro. No entanto, o prêmio maior é do Ford KA de Marcos Vinicius Senhorelli. Foi campeão brasileiro deste ano no campeonato do 101% de Tuning.
Trabalho sério
Se para alguns o Tuning é um hobby, para outros é trabalho. Exemplo disso é Cátia Marisa Tappi Monreal, 31, que trabalha com personalização de carros há seis anos e é uma das poucas mulheres que têm seu carro “tunado”. Ela entrou no ramo por causa do marido, o empresário Fábio Monreal.
O casal é sócio de uma loja de peças e acessórios para tuning. Além de ser consultora de Tuning, Cátia é consultora da área de ferragem. A especialista conta que quando vai para o trabalho e deixa o carro no estacionamento, todo mundo sabe que ela chegou. O carro se transformou numa “espécie de cartão de visita”. Ela deixa claro que gosta de trabalhar neste setor “porque agrega as duas coisas, trabalho e família”.
Dentro da lei
Para rodar normalmente pelas ruas, os carros personalizados precisam estar de acordo com o CTB (Código de Trânsito Brasileiro). E antes de fazer as modificações é necessário pedir previamente autorização no órgão competente. Este ano entraram em vigor duas resoluções, a 262 e a 282, do Contran (Conselho Nacional de Trânsito), que detalham as exigências para modificação do sistema de suspensão e preparação do motor
do veículo.
E nem mesmo aquele que lida com a burocracia desse setor escapa da sedução que carros tunados proporcionam. A paixão do despachante Hélio José do Carmo começou em um evento de Tuning em 2003. Carmo, que ficou conhecido por amantes dessa arte
como “Cabrera”, começou a se especializar em
carros modificados.
Há 14 anos como despachante, “Cabrera” já legalizou muitos carros tunados. Segundo ele, se trata de um processo complexo, mas é possível a legalização do veículo desde que seguidas as resoluções, mais a aprovação nos testes do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia). O dono do veículo deve pedir uma autorização por escrito para “tunar” o carro. O veículo é vistoriado para verificar se as mudanças propostas são possíveis. Na sequência, o motorista tem um prazo de 30 dias para providenciar a documentação exigida.
Depois, cabe ao Inmetro realizar cerca de 96 testes, que deverão ser reconhecidos pelo Detran. A partir da aprovação pelo órgão de trânsito, o documento de legalização do carro é emitido. “Cabrera” explica que as novas resoluções limitaram o Tuning. Tornar um carro conversível ou alongá-lo, por exemplo, ficou proibido. As resoluções permitem alargar os paralamas e parachoques, rebaixar o veículo ou colocar uma roda maior.
Também permitem a cor “fantasia”, como é chamada no documento. Já no caso do turbo, dispositivo que dá um aumento substancial ao motor, é permitido que ele seja instalado de modo a aumentar em apenas 10% a potência. O despachante adverte que a polícia usa um dinamômetro para verificar se a cavalagem do carro está de acordo com as normas. Em caso negativo, o dono do veículo é multado e são incluídos pontos na carteira.
O despachante conta que um de seus clientes construiu um bugue completamente diferente.
As modificações, tidas como perfeitas, resistiram até os primeiros testes do Inmetro. O chassi acabou entortando. Ele explica que os testes são bastante rígidos e que é muito importante não rodar sem a documentação exigida. “A polícia apreende o veículo mesmo e multa”, ressalta.
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