Edição 167 - Matéria Especial
 
Correndo atrás
Filiais brasileiras de multinacionais do setor automotivo recebem investimentos também nas áreas de desenvolvimento de produtos e tecnologias, o que coloca o País em destaque
 
Texto: Cléa Martins

Está ficando cada vez mais distante o tempo em que o Brasil era visto apenas como campo de produção para muitas empresas que por aqui se instalavam. Agora, com um quadro econômico estável, que tem permitido o aumento contínuo das vendas não apenas de automóveis, mas de um leque bastante vasto de produtos e serviços, as companhias daqui têm conseguido captar mais investimentos de suas matrizes para a criação de novos e modernos centros tecnológicos, e não apenas para ampliação de suas linhas de produção, como era feito anteriormente sempre que havia um crescimento de demanda. Os investimentos milionários feitos nos centros recentemente construídos pela indústria automotiva no País são prova de que, com as produções recordes dos últimos meses, as áreas de tecnologia e desenvolvimento de novos produtos têm ganhado cada vez mais visibilidade.

 
  Visteon Tech Center, inaugurado em abril deste ano
   
 
  Um dos laboratórios do novo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Tecnologia Automotiva da Mahle

Testes e validações
O Visteon Tech Center, inaugurado em abril deste ano, custou R$ 10 milhões à Visteon Sistemas Automotivos. O laboratório fica na unidade Arbor da empresa, em Guarulhos, São Paulo, e é considerado um dos mais modernos da América Latina. Fatores como disponibilidade e custos pesaram a favor do Brasil quando a empresa decidiu montar um centro de testes de produtos por aqui. Segundo Jomar Napoleão, diretor do grupo de eletrônica da Visteon América do Sul, antes do centro ser aberto, os produtos fabricados pelas plantas locais da empresa e até mesmo veículos inteiros equipados com componentes do sistemista tinham que ser mandados para laboratórios nos Estados Unidos ou até no Japão para serem analisados: “Tal procedimento demandava tempo\ e aumentava o custo dos testes. Com um laboratório local, vai ser mais rápido e barato resolver os problemas constatados”.
A logística oferecida pelo País também o beneficiou. Segundo Napoleão, quando a empresa pensou em abrir um laboratório na América do Sul, a Argentina também foi considerada, só que a forte engenharia mantida pela empresa brasileira e o grande número de montadoras instaladas por aqui foram fatores decisivos. De acordo com Hélio Contador, diretor-presidente para a Visteon América do Sul, o lançamento do Tech Center reforça a estratégia da empresa em oferecer soluções completas à indústria automobilística, além disso, demonstra o seu comprometimento com a região: “Este novo laboratório vai ao encontro deste posicionamento, pois agora oferecemos aos clientes mais uma opção de serviços de valor agregado, com a possibilidade de fazer todo o processo de análise dentro do próprio Brasil, otimizando o tempo e reduzindo os custos de produção”, explica.

Ainda maior
A Mahle Metal Leve não poupou esforços e dinheiro para expandir, aqui na terrinha, seu Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Tecnologia Automotiva. A multinacional gastou cerca de R$ 70 milhões para ampliar e transferir seu antigo centro de Santo Amaro para Jundiaí, São Paulo. Com isso, o sétimo núcleo tecnológico mundial da empresa, inaugurado oficialmente no final do mês passado, já é considerado o maior de toda a América Latina. Para os dirigentes da companhia, o mercado brasileiro é muito importante, não apenas para o grupo, como também para o continente, e isso, por si só, já justifica a implantação de um laboratório tão suntuoso no País.

Vantagens
Com centros tecnológicos mais modernos, as empresas instaladas no Brasil ficam cada vez mais independentes de instalações no exterior, o que permite tornar mais eficiente tanto a produção dos componentes quanto o atendimento ao mercado interno. No centro da Mahle, por exemplo, que conta com 260 pesquisadores, engenheiros e técnicos, além de equipamentos e instalações dos mais modernos, como um dinamômetro e uma câmara climatizada, respectivamente, é possível testar os produtos da marca, além de desenvolver novos projetos. Com isso, os dirigentes da empresa acreditam que o centro vá contribuir, entre outras coisas, para o fortalecimento da liderança da marca no mercado de componentes para motores de combustão interna e de periféricos. “Este novo centro tecnológico nos dá a possibilidade de incrementar a gama de serviços à crescente indústria automobilística na América do Sul”, declarou Heinz K. Junker, presidente mundial do Grupo Mahle na inauguração do complexo. E não são apenas as empresas fabricantes que ganham quando um produto é desenvolvido e testado no Brasil, o cliente também. Representantes da Visteon calculam que os testes automotivos realizados no centro tecnológico da empresa permitam baixar o custo e o tempo gasto em testes em 30-40%. Além disso, diz Junker, os projetos terão o máximo de confidencialidade graças à excelência dos mecanismos de controle de acesso e sistemas de segurança oferecidos pelo centro da empresa.
Assim como no centro da Mahle, o laboratório da Visteon conta com um dinamômetro de motor, além de uma câmara térmica e equipamentos de avaliações mais tradicionais, como as de sistemas elétricos e eletrônicos, de refrigeração e de áudio. Tanta tecnologia abre um novo nicho de negócios para a multinacional, que passa a ter capacidade técnica para oferecer aos seus clientes, e até nãoclientes, no Brasil e na América Latina, testes de engenharia automotiva sem recorrer a outros países.
O problema vai ser achar tempo para atender tanta demanda. O volume de trabalho é tão grande que nossa agenda para este ano já está praticamente preenchida”, explica Jomar Napoleão.
Segundo o executivo da Visteon, o valor cobrado pelos serviços oferecidos no centro de testes da empresa varia muito e muda conforme o serviço solicitado pelo cliente. O que não deve mudar, no entanto, pelo menos não enquanto o Tech Center estiver cheio, é o prazo estimado pela empresa para recuperar o capital investido na construção do seu centro de testes: apenas três anos.

Made in Brazil
Não são apenas as empresas de origem estrangeira que estão investindo mais em qualidade e centros de teste. A Marcopolo concluirá, até outubro deste ano, um programa de investimentos de cerca de R$ 50 milhões em suas três plantas no País – Ana Rech e Planalto, ambas em Caxias do Sul, RS, e na Ciferal, em Xerém, RJ. Iniciado no final de 2007, o programa tem por objetivo elevar os níveis de produtividade e qualidade dessas unidades para atender à crescente demanda, sobretudo do mercado brasileiro.
Os investimentos estão sendo realizados simultaneamente nas três unidades e envolvem a ampliação da área construída e aquisição de modernos equipamentos para as linhas de montagem e automatização de processos para a fabricação de componentes, como também a qualidade. Por isso, entre as melhorias já concluídas na unidade de Ana Rech, onde estão sendo aplicados mais de R$ 30 milhões, um dos destaques é a construção dos novos prédios para a assistência técnica e para a PDI (inspeção final de qualidade do produto), que analisa 100% dos ônibus fabricados para assegurar a qualidade do produto final.

 
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