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Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento.
email: contatodelfimnetto@terra.com.br |
O Brasil, como qualquer outra economia, recebe pressões inflacionárias. Nesse momento, se quisermos comparar com outros parceiros de porte parecido como a Rússia, a Índia e a China, estamos numa situação um pouco melhor pois temos uma política fiscal razoável e uma política monetária que acompanha rigorosamente a meta de inflação.
A pressão existe no mundo inteiro e se acentuou nos últimos meses mas ninguém até agora, que eu saiba, abandonou o sistema de metas de inflação.
No nosso caso, a meta de 4,5% tem margens de 2% acima e 2% abaixo, de forma que ela pode flutuar entre 2,5% e 6,5%. O objetivo do Banco Central deve ser fazer convergir a meta para os 4,5% num prazo de 18 ou 24 meses. O importante é que a meta não escape do intervalo previsto.
O que está ameaçando esse objetivo é a espécie de “cabo-de-guerra” que se estabeleceu entre Fazenda e Banco Central, cada um querendo mostrar que tem mais poder que o outro e essa excitação favorece as expectativas de inflação e ajuda a criar o clima favorável à elevação dos juros. Por conta disso o ambiente de negócios começa a ficar intranqüilo, investimentos são postergados, há uma redução de demanda de alguns produtos e sente-se que algumas empresas passam a usar os seus estoques e deixam de aumentar a produção. Podemos ter uma situação complicada porque a alta da taxa de juros vai aumentar a despesa do governo com a sua dívida interna que já é de 47% do PIB.
Quer dizer, o custo do governo cresce ao mesmo tempo em que a desaceleração da atividade econômica faz cair a arrecadação. É o caminho para o pior dos mundos: custos em alta e receita em queda levam ao desequilíbrio fiscal num prazo muito curto.
O Banco Central precisa ter uma noção muito clara se estamos diante de um processo de inflação ou se estamos diante apenas de uma alteração de preços relativos. A inflação exige uma causa permanente, um crescimento de demanda continuado, o que não é o caso. O que existe de verdade é um crescimento das expectativas um tanto forçado na direção do aumento da inflação. No momento o mais correto seria manter tudo como está: a meta de 4,5% é bastante razoável, pode ser atingida sem grandes turbulências porque acomoda os atritos institucionais que existem na economia brasileira, como ficou demonstrado nos últimos dois anos em que o PIB cresceu bem e a inflação se manteve nos patamares prometidos. Não é preciso ficar procurando desvios para que a meta não se afaste do núcleo.
O ideal é não mexer em nada agora e aguardar um pouco mais o comportamento dos preços, porque não existem fatores que justifiquem a quase histeria que se formou por causa dos tremores externos que ao final já vão arrefecendo. E que na verdade não têm mesmo a ver com pressões de inflação e sim com o descontrole que tomou conta de uma parte do sistema bancário no primeiro mundo que, cego pela ganância, ignorou os mais simples princípios de segurança nos empréstimos hipotecários.
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