Edição 165 - Matéria de Capa
 
Temos Vagas
O País não conta com um número suficiente de profissionais qualificados para sustentar a decolada da economia do setor automotivo. A escassez de mão-de-obra qualificada atinge todos os segmentos, das montadoras às reparadoras independentes de veículos
 
Texto: Cléa Martins
 
   

O aumento de vendas de automóveis dos últimos dois anos tem sido maior que a capacidade do País em formar pessoas capacitadas em atender à grande demanda do mercado. Só para se ter uma idéia, nos últimos dez anos o número de montadoras no País saltou de nove para 22. Mas a maior comercialização de veículos exige mudanças e adaptação de toda a cadeia produtiva. Fabricantes de peças, concessionárias, seguradoras e oficinas também foram afetados pela produção recorde do ano passado, de quase 3 milhões de unidades. Tal aumento resultou, entre outras coisas, numa das melhores fases empregatícias do setor no País, pelo menos do ponto de vista do empregado. A fabricação de veículos contratou, em 2007, 120 mil pessoas, enquanto o setor de autopeças fechou o mesmo ano com 213 mil funcionários e o de reparação, com 653 mil pessoas. E olha que a capacidade empregatícia desse setor vai além desses três segmentos. Segundo a Anfavea – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores –, 1,5 milhão de empregos no País estão relacionados à fabricação ou manutenção dos automóveis. Na mão oposta ao crescimento econômico, a falta de investimentos em educação e na formação de profissionais especializados na indústria automotiva tem colocado o setor em uma situação nada confortável, pois estão faltando engenheiros mecânicos, eletrônicos, elétricos, de controle e de automação, além de designers de veículos no mercado nacional. O coordenador do curso de Engenharia Mecânica Automobilística do Centro Universitário da FEI – Faculdade de Engenharia Industrial–, Ricardo Bock, conhece de perto esse problema, pois não são raros os representantes das áreas de recursos humanos das montadoras que buscam por profissionais nas salas de aula da instituição. Com a oferta de profissionais menor que a demanda, a maioria dos alunos dessas áreas já saem da faculdade com emprego garantido. Muitos deles acabam optando pelas montadoras, que ainda oferecem oportunidades mais tentadoras para a carreira dos recém-formados. Mesmo assim, em muitas delas o quadro de engenheiros especializados para atender às 24 horas de trabalho de suas linhas de produção está incompleto. A Renault, por exemplo, tem o desafio de encontrar e contratar 200 engenheiros para trabalhar no novo Centro de Engenharia América da empresa. As também francesas Citroën e Peugeot precisam de 1.000 engenheiros e designers para garantir o funcionamento de suas áreas de desenvolvimento de produtos. E não é só. Até empresas mais tradicionais no País, como a General Motors, que fechou 2007 com 200 novos engenheiros, ainda precisarão admitir mais funcionários. Outras grandes montadoras, como a Fiat e a Ford, que levaram seus pólos de desenvolvimento de produtos para Minas e Bahia, respectivamente, trabalham com um pouco mais de tranqüilidade, já que a disputa por profissionais capacitados nessas regiões é um pouco menor, devido à falta de concorrentes diretos. Em Betim, no pólo da montadora de origem italiana, trabalham 600 engenheiros, enquanto em Camaçari, a Ford mantém um estúdio de design com 56 profissionais, a maioria formada em Desenho Industrial. Mas isso não quer dizer que essas empresas também não precisem garimpar talentos.

Outros players
Se com toda a representatividade das montadoras está difícil para achar profissionais capacitados, imagina para os outros players do setor? Não é à toa que muitos fabricantes de autopeças estão perdendo profissionais, que passaram por treinamentos contínuos dentro das empresas durante anos, para companhias maiores. Com isso, garantem alguns especialistas do setor, em épocas de escassez de mão-de-obra as empresas, além de acharem e treinarem profissionais, ainda precisam se preocupar em mantê-los motivados. Para não passar por esse aperto, a Delphi, assim como a Fiat e a Ford, entre outras empresas, abriu novas frentes de trabalho e levou suas plantas para diferentes regiões do País – Piracicaba (SP), Paraisópolis (MG), Gravataí (RS), Itabirito (MG), São José dos Pinhais (PR), Jaguariúna (SP), Espírito Santo do Pinhal (SP), Jambeiro (SP) e Porto Alegre (RS). “Só no ano passado, abrimos em Minas mais de mil vagas e continuamos contratando todos os meses. Quando se tira o foco dos grandes centros as coisas ficam mais fáceis”, explica Edson Brasil, vicepresidente Global da Delphi Soluções em Produtos e Serviços – divisão de aftermarket da empresa. Além disso, diz o executivo, o investimento constante feito pela empresa, mais de 40 milhões de reais só no ano passado, faz com que a companhia possa sempre focar tanto na ampliação de novas redes como no treinamento de seus profissionais.

Técnicos e mecânicos
Para as empresas que precisam contratar técnicos em cursos automobilísticos, o Senai é o melhor caminho. Na unidade do Ipiranga, em São Paulo, a escola formou mais de seis mil alunos nesses cursos só no ano passado. Segundo Valdir de Jesus, gestor de negócios da unidade, ofertas de empregos não faltam e a procura por profissionais qualificados é tão alta que, em alguns casos, o emprego já é predeterminado desde a matrícula, ou seja, o aprendiz já tem o estudo vinculado à empresa para quem vai prestar serviços depois de concluir.Com tanta concorrência, os proprietários de oficinas independentes têm que ficar atentos para garantir que não vai faltar mecânico para atender aos clientes que estão por vir. É que a frota recorde de veículos vendidos em 2007 já começa a chegar às reparadoras independentes. E pelo que tudo indica essa frota ainda tende a aumentar: “Desde o ano passado, tive que contratar dois novos funcionários e a tarefa de achar gente capacitada não foi nada fácil”, diz Robson Almeida, proprietário de uma oficina em Santo André, que ainda revela outro problema do segmento quando o assunto é mão-de-obra: “Geralmente o que encontramos no mercado são profissionais despreparados. Sem muita opção, contratamos essas pessoas e as treinamos. Mas quando elas se sentem capacitadas, resolvem partir e abrir suas próprias oficinas”, lamenta Almeida.

Cursos
Quem estiver interessado em não ficar de fora do crescimento automotivo, seja iniciante no setor ou profissional já atuante, tome nota de algumas dicas de cursos:

Técnico
O Senai é um dos mais reconhecidos formadores de profissionais técnicos na área automotiva. www.senai.br

Universitário
O Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia ofere o curso de graduação em Design, que pode atender os interessados em trabalhar na indústria automobilística. www.maua.br
Para quem pensa em cursar engenharia, uma das opções é a FEI – Faculdade de Engenharia Industrial. www.fei.edu.br

Pós-graduação
O Centro de Estudos Automotivos, no Centro Universitário da FEI, em São Paulo, promove o curso de pósgraduação em Gestão Automotiva. Composto por três semestres, ele é indicado para profissionais com interesse em negócios da indústria automobilística. www.ceaut.com.br

Fazendo o seu papel
Cientes de que o problema educacional no País não pode ser resolvido apenas pelo Governo, algumas empresas do setor automotivo têm patrocinado os mais diferentes cursos educacionais. A Delphi Soluções em Produtos e Serviços, por exemplo, promoveu, entre 26 e 30 de maio, em Curitiba (PR), um programa de treinamento para profissionais do mercado de reposição local. Os treinamentos de duas horas foram direcionados a cerca de 350 aplicadores e varejistas. E essa não foi uma iniciativa isolada. Faz parte de um programa da empresa que, só em 2007, treinou mais de 10 mil pessoas. Além disso, a exemplo de outras empresas do setor automotivo, como Dana, Affinia, Arteb, ArvinMeritor, Federal Mogul, Fram, Grupo Schaeffler, ZF Sachs, entre tantas outras, a Delphi inaugurou, em 27 de maio, uma turma do projeto Formare no Espírito Santo do Pinhal, interior de São Paulo. Lá, os jovens vão ter a oportunidade de freqüentar o curso profissionalizante de Operador de Logística e Montagem de Produtos Eletromecânicos, ministrado por 33 educadores voluntários, que são funcionários da companhia.

Falando em Delphi...
A empresa promoveu, em maio, o Encontro de Líderes do Setor Automotivo. Nele, empresários de toda a cadeia automotiva brasileira, representantes de órgãos setoriais e governamentais, além de especialistas discutiram sobre os impactos do crescimento da produção automotiva alcançado pela indústria nos últimos anos e suas conseqüências para o mercado de reposição e também para a sociedade. “Queremos fomentar uma grande discussão a respeito dos problemas automotivos e buscar soluções que beneficiem a todos. Ao mesmo tempo em que pensamos em vender mais carros, precisamos saber como melhorar o tráfego nas vias públicas, em poluir menos o ar das grandes cidades e em viabilizar mais crédito para que os motoristas sejam capazes de cuidar melhor de seus automóveis”, afirma Edson Brasil. Segundo pesquisa divulgada pelo executivo, em 2006 foram notificadas 730 mil panes em apenas 5% da malha viária asfaltada do País. Delas, 587 mil eram mecânicas e 50 mil elétricas. E como se isso não fosse o suficiente, 92 mil carros pararam por simples falta de combustível. “Em São Paulo, um veículo parado pode acarretar mais de 13 quilômetros de congestionamento às ruas da cidade, causando despesas aos cofres públicos e ao bolso do consumidor. É por essas e outras que a indústria automotiva, como um todo, também tem responsabilidade sobre a manutenção dos veículos. É por isso que estamos, por meio do GMA – Grupo de Manutenção Automotiva –, lançando a campanha Carro100%, de conscientização da necessidade da manutenção preventiva dos veículos”, explica Brasil. Frank Ordonez, presidente Global da Delphi Soluções em Produtos e Serviços (DPSS), divisão da empresa voltada ao aftermarket, que também esteve presente ao evento, elogiou a iniciativa do grupo brasileiro. Segundo ele, esta foi a primeira vez que participou de uma reunião com representantes de todos os elos que formam a grande cadeia automotiva, inclusive montadoras, e ainda do Governo. Isso não tinha acontecido nem mesmo em países desenvolvidos. Atendendo aos pedidos dos participantes, a Delphi encerrou o evento prometendo realizar outro encontro do grupo em no máximo 60 dias. “Estamos muito felizes com o crescimento do mercado. Acreditamos que todo brasileiro tem direito a comprar seu carro, mas sabemos que essa maior demanda exige mais de todos nós”, finaliza Brasil.

 
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